'Se concorrer, ex-governador abre espaço para Aécio em 2014'

Para especialista em partidos da USP, prévia do PSDB em SP pode causar consequências internas negativas

Entrevista com

LUCAS DE ABREU MAIA, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2012 | 03h02

Especialista em partidos, o cientista político Celso Roma é categórico: "Não faz sentido o PSDB realizar prévias". Segundo ele, as prévias podem causar mais danos ao tucanato que seu cancelamento. Ele avalia ainda que, se aceitar concorrer à Prefeitura, José Serra sinaliza que abandonou o projeto de disputar a Presidência e abre espaço para a indicação de Aécio Neves.

Para o PSDB, quais as consequências de abrir mão da prévia?

O cancelamento das prévias pode frustrar parte dos líderes e demais filiados do partido. Há uma expectativa de que a realização de uma consulta mais ampla incentivaria a filiação e atrairia os filiados para dentro do partido. Mas as consequências podem ser mais negativas se o partido realizar prévias. Se o escolhido não for José Serra, o candidato do PSDB terá maior risco de perder a eleição. Além de sofrer a indiferença da cúpula do partido, ele teria dificuldade para costurar coligação, seja com aliados tradicionais como o DEM, seja com aliados em potencial como o PSD. Isolado no ninho tucano e rejeitado pelo prefeito Gilberto Kassab, o eventual candidato do PSDB concorreria sob condições bastante adversas.

Faz sentido realizar prévias em um partido como o PSDB - essencialmente de quadros e com pouca base social?

Não faz sentido o PSDB realizar prévias. Embora o método esteja definido no estatuto do partido como uma alternativa para a definição dos candidatos, desde a sua fundação em 1988 os líderes do PSDB tomam as decisões. As prévias teriam legitimidade se o PSDB contasse com um número grande de filiados e militantes, com participação nas atividades. Mas o processo de filiação ao PSDB é feito sem um controle rigoroso. O PSDB não sabe nem dizer quantos e quem são os filiados aptos a participar da vida partidária.

Seria possível a realização das prévias e, depois, a retirada do vencedor em prol de Serra?

Isso não faria sentido nenhum. Ou a direção do PSDB mantém as prévias e legitima o método de resolver a disputa pela vaga, ou a cúpula consolida a tradição de tomar as decisões relevantes para o futuro do PSDB.

O sr. concorda com a avaliação de Lula de que uma aliança PT-PSD enfraqueceria a posição do PSDB para 2014?

Lula avaliou corretamente o significado da eleição para a Prefeitura de São Paulo. O que está em jogo é a sucessão presidencial de 2014. São Paulo demarca o território de uma enfraquecida oposição ao governo federal. Se o PSDB perder a preferência dos eleitores paulistanos e se isolar de aliados em potencial como o PSD, o caminho para a reeleição da presidente Dilma Rousseff está pavimentado.

O que a candidatura municipal significaria para o projeto político de Serra, que sempre foi o de chegar à Presidência?

Se aceitar a indicação do partido para concorrer à Prefeitura de São Paulo, Serra sinaliza que abandonou o projeto de disputar a Presidência e abre a possibilidade de o PSDB, enfim, começar a costurar um consenso em torno da indicação de Aécio Neves para 2014.

Como deve ser interpretada a alta rejeição a Serra nas pesquisas até agora?

Pode ser explicado pela polarização entre o PSDB e o PT em São Paulo. Os candidatos de renome e com experiência no governo dividem tanto a preferência como a rejeição do eleitorado. Se Marta Suplicy estivesse na disputa pela Prefeitura, ela também constaria da lista dos candidatos mais rejeitados pelos paulistanos. Já o baixo índice de intenção de votos de Serra está relacionado, em parte, à indefinição de sua candidatura e, em parte, ao fato de ele ter abandonado o cargo de prefeito (em 2006) para disputar a eleição para governador de São Paulo. O maior desafio de Serra será convencer os eleitores paulistanos de que ele deseja conquistar e cumprir o mandato de prefeito.

O que a candidatura Serra significa para o PT?

A candidatura de José Serra seria um obstáculo às pretensões políticas de Fernando Haddad. Porém, somente com o incentivo do governador Geraldo Alckmin e o apoio do prefeito Gilberto Kassab, o candidato do PSDB pode fazer frente ao candidato do PT. A eleição paulistana será um cabo de guerra entre a administração municipal e estadual, de um lado, e, de outro, a administração federal.

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