WILTON JUNIOR / ESTADÃO
WILTON JUNIOR / ESTADÃO

‘Se a vacina é inglesa, chinesa, russa, alemã, não importa’, diz Eduardo Paes

Candidato do DEM à Prefeitura do Rio defende vacinação em massa, prega diálogo com o presidente Bolsonaro e critica gestão de Crivella

Entrevista com

Eduardo Paes, candidato do DEM à Prefeitura do Rio

Caio Sartori, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2020 | 19h27

Líder nas pesquisas para a eleição carioca, o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM) tenta voltar ao jogo após quatro anos fora da prefeitura e dois anos depois da derrota para o azarão Wilson Witzel (PSC) na disputa estadual. Em entrevista ao Estadão, o candidato busca afastar qualquer forma de nacionalização da campanha. Prega diálogo com o presidente Jair Bolsonaro, que dá apoio velado ao atual prefeito, Marcelo Crivella (Republicanos). “Eu quero saber do Rio de Janeiro. Minha cidade está numa situação muito crítica para eu tratar de eleição nacional”, esquiva-se.

Em meio a acenos tanto ao diálogo com Bolsonaro quanto a bandeiras da direita, como um possível armamento da Guarda Municipal, Paes não deixa de alfinetar o modo como Crivella tenta se associar ao presidente. “Deve estar sendo duro para ele ter que levar o Crivella, imagino, mas enfim… Duvido que ele acredite que o Crivella é uma boa alternativa para o Rio, mas entendo a posição, respeito, não me meto nem reclamo”, afirma o ex-prefeito, que também chama o adversário de “incompetente”. 

O ex-prefeito também se defende das duas decisões judiciais desfavoráveis nos últimos meses. Em uma delas, virou réu por suposto caixa 2 da Odebrecht para sua reeleição, em 2012. Na outra, na semana passada, teve bens bloqueados por suposta improbidade administrativa. Paes tenta, desde 2018, se desvencilhar do ex-governador Sérgio Cabral Filho (MDB), antigo aliado que hoje está preso e condenado a cerca de 300 anos de prisão. “O Rio inteiro delatou. E não tem ninguém para dizer que pedi uma sacanagem, um favor, nada”, alega o candidato. 

O senhor teve bens bloqueados por uma decisão judicial voltada para gastos com subsídios de passagens de ônibus. Como encara essa situação?

Importante dizer que a decisão não tem nada a ver com corrupção, desvio. Seria uma acusação de infração administrativa, da qual vou me defender. O Rio não tem subsídio da tarifa de ônibus, ao contrário de São Paulo. Essa conta da gratuidade alguém paga - o trabalhador ou a Prefeitura. Eu não quis aumentar o preço da tarifa, então pagava essa gratuidade (para alunos da rede pública). Acho que é uma medida (judicial) descabida, mas temos que respeitar a decisão judicial e vamos provar que não houve improbidade administrativa. 

Junto com o fato de ter virado réu por suposto caixa 2 da Odebrecht, isso não prejudica sua candidatura?

Claro que pode. Não acho que a Justiça tenha que parar na época do processo eleitoral. Mas, a três semanas da eleição… Decisão da Justiça não se comenta, se respeita.

O senhor sempre bate na tecla de que não recebeu favores pessoais da Odebrecht, algo que o próprio delator Benedicto Júnior também diz. Mas reconhece que pode ter havido caixa 2 para a campanha de 2012?

Não. Não conheço detalhes da acusação, mas você tem o cara lendo a delação que vazou ‘para a torcida do Flamengo’ e  reproduzindo o que ouviu outro falar. O suposto beneficiário, Renato Pereira, teve acesso à decisão da Odebrecht, como todo mundo teve, e saiu falando aquilo, reproduzindo o que ele leu. A prova que ele junta contra mim é a delação da Odebrecht.

Não teme que isso ajude, mais uma vez, a associarem seu nome ao ex-governador Sérgio Cabral?

Eu não sou analista de política, mas acho que as pessoas estão mais atentas. Você não pode responder pelos erros dos outros. Olha para quem disputou a eleição comigo em 2018: olha os que mais apontavam dedo contra mim e veja o que aconteceu com eles.

O que o senhor sente quando vê o que aconteceu com o governador Witzel e lembra que perdeu aquela eleição de modo inesperado para ele?

Aquela sensação de “Eu te disse”. A gente avisou. No início ficou claro que ali havia grupos empresariais por trás, o mecanismo que operava o governo do Estado estava por trás da candidatura dele desde o início. A relação dele com esse Mario Peixoto, Pacheco, sei lá... Provocado pelo Romário no debate de 2018, isso ficou muito claro. Mas, vida como ela é: a gente ganha, perde, faz parte.

Teme um ‘novo Witzel’ na eleição deste ano?

Acho que o Rio não deveria correr o risco nem de ter um novo Crivella nem um novo Witzel. 

Quem seria o novo Witzel neste ano?

Não sei, não vejo. Até porque não vi o Witzel (que tinha apenas 1% de intenção de voto no início da campanha). Meu papel é apresentar minhas propostas e alertar para esses riscos. Cabe à população decidir. A gente vem de duas experiências muito frustrantes. Espero que a população entenda e esteja atenta a isso. 

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No famoso áudio que vazou de conversa sua com o Lula, o senhor reclama da dificuldade, para quem começou a gestão lidando com ele e Cabral, de ter que lidar com Dilma e Pezão. Acha que isso melhorou ou piorou tendo Cláudio Castro/Witzel e Bolsonaro?

Eu vou me dar bem com o governador que tiver, com o presidente que tiver. Não tenho a menor dificuldade nem com o Bolsonaro nem com o Cláudio Castro. Conheço os dois há algum tempo já; o Bolsonaro, inclusive, mais que o Cláudio. É meu papel lidar com os governadores, com os presidentes da República, com quem passar. Fiz isso com Dilma, Lula, Michel Temer; com Cabral, Pezão, Dornelles. Meu papel vai ser governar bem e governar junto.

Não teme uma retaliação política? Ele tem tido atritos com o governador João Doria, cujo PSDB apoia sua candidatura. Não pode considerar o senhor um cabo eleitoral dele para 2022 e querer retaliar?

O cabo eleitoral que eu sou é do Eduardo Paes e do Rio de Janeiro. Quero deixar isso bem claro na eleição. Não vou ficar me apoiando em bengala de ninguém. Respeito a decisão do presidente Bolsonaro, o acordo dele com a Igreja Universal, com a TV Record. Deve estar sendo duro para ele ter que levar o Crivella, imagino, mas enfim… Duvido que ele acredite que o Crivella é uma boa alternativa para o Rio, mas entendo a posição, respeito, não me meto nem reclamo.

Não houve apoio formal dele ao Crivella. O que acha da estratégia do prefeito de inserir o presidente a todo momento na campanha?

Mostra como o Crivella é ruim. Se fosse bom prefeito, não precisaria de bengala nenhuma. Eu tento me apresentar sem bengala nenhuma. O candidato sou eu, quem vai mandar na prefeitura sou eu, quem vai governar a cidade do Rio de Janeiro sou eu. O Crivella é o oposto: ele precisa de bengala porque é um incompetente. 

Os escândalos do governo Witzel escancararam mais uma vez casos de corrupção envolvendo as organizações sociais (OSs) que administram hospitais. Pretende acabar com elas no município?

Eu vinha preocupado com isso desde 2014, quando criei a RioSaúde, empresa pública de Saúde. Não há uma quantidade de organizações sociais dignas desse nome tão grande assim. Vários empresários foram montando ou adquirindo OSs para fazer seus negócios. Já percebia isso. Tivemos o máximo de zelo, é importante destacar isso. Não que não tenha tido problema, mas não teve nenhum escândalo. Minha ideia é ampliar o papel da RioSaúde. Acabar totalmente com OSs não sei, porque ainda tem OSs boas pelo Brasil. 

O problema então não é do sistema de OSs, e sim de algumas empresas específicas?

Roubo na saúde sempre teve, né? Não adianta tirar o bode da sala. Tem que melhorar o sistema de controle e botar gente decente para tomar as decisões.

Qual a prioridade do prefeito que assumir em relação à pandemia e o que fazer com as escolas?

Tem duas coisas muito importantes que o prefeito vai ter que pensar: no caso das escolas: preparar a rede para a retomada das aulas e compensar o ano perdido das crianças da escola pública. Temos o programa que estamos chamando de ‘2 anos em 1’, que vamos ter que fazer com reforço escolar. Outro programa chamamos de Conectados, em que vamos disponibilizar internet para todas as crianças da rede pública. Não dá mais para falar em laboratório de informática; vamos ter que ter internet disponível para absolutamente todas as crianças. No campo da Saúde, temos que preparar as clínicas para vacinação. Se a vacina é inglesa, chinesa, russa, alemã, não importa: quero é que as Clínicas da Família estejam em condições e preparadas para uma vacinação em massa que possa trazer tranquilidade para as pessoas. 

Quais foram os principais erros das gestões Witzel e Crivella na pandemia?

Eu destacaria duas coisas, além da roubalheira e do desperdício de dinheiro. Primeiro, a desnecessidade de qualquer hospital de campanha. O Rio, ao contrário de outros lugares do Brasil, tem quase 1.800 leitos desativados. Seria muito mais inteligente ativá-los, até porque viraria legado. E teve a total falta de entrosamento. Não consegui ver aqui no Rio uma reunião do prefeito e do governador juntos para adotar alguma medida. Ao contrário: tinha um dizendo que a escola voltaria no outro dia, e o outro editava um decreto dizendo coisa totalmente diferente. Não quero que fiquem amigos, que virem parceiros políticos nem tomem um chope juntos. Mas quero que os governantes se falem. 

Sua gestão teve a sorte de pegar a época dos grandes eventos no Rio. Foi uma oportunidade desperdiçada? O que faria de diferente?

O Brasil entrou em crise a partir de 2014, 2015. E o Rio teve sua crise adiada justamente por causa da Olimpíada. O desemprego só começou a crescer aqui depois da Olimpíada. Acho o legado fantástico Tem um conjunto de candidatos que são neófitos, que não conhecem uma Clínica da Família, a atenção básica, as Escolas do Amanhã. Eu fiz mais escolas no Rio que o (ex-governador Leonel) Brizola. Não sabem o que é um BRT. Isso atrapalha essa percepção, mas acho que a população entende bem isso.

Citar neófitos em eleição majoritária e o Brizola é uma indireta para a Martha Rocha (PDT), que vem protagonizando embates com o senhor.?

Não, de maneira nenhuma. Sempre tive com ela uma relação de respeito. Entendo as acusações, os ataques, faz parte do jogo eleitoral. 

Uma ampla pesquisa recente revelou que as milícias já ocupam 57% do território do Rio. O que a prefeitura pode fazer, já que não tem as polícias?

Combater ocupação irregular, que foi algo que sempre fiz. Espero que a partir dessa  entrada das milícias, que antes chamávamos de grileiros, a esquerda ajude também.  Tem sempre as pessoas mais pobres (morando nesses locais), mas por trás tem as pessoas que constroem aquelas casas todas. No meu governo a gente combatia isso o tempo todo, combatia essas cooperativas de van e fazia as licitações adequadas. O que a prefeitura pode fazer é sufocá-las economicamente, além do controle urbano. Para além disso, é papel de polícia mesmo, de Segurança Pública, impedir que essas forças possam se expandir pela cidade. 

Falando em Segurança, o que a prefeitura pode fazer nessa área?

A legislação mudou, acho que a Guarda Municipal tem que ter um papel mais de polícia municipal: olhando para os corredores comerciais, para os locais de grande fluxo de pedestres. Vou querer a Guarda com um papel mais ativo na Segurança Pública.

Armada?

Uma parte, sim. Mas uma parte pequena para começar, um grupo de elite com muito treinamento. Avançando isso, começamos a observar se melhorou. 

Isso é um aceno ao voto bolsonarista?

Não, não faço aceno a eleitor nenhum. Faço aceno à cidade, ao carioca, àquilo que acho que é adequado e melhor para a cidade. Sempre fui a favor das armas não letais e contrário às letais. A opinião da gente evolui, não tem aceno a ninguém.

Acha que temas morais, como a centralidade do discurso anticorrupção, voltarão a ser decisivos nesta eleição ou o eleitor cansou disso?

Acho que o tema moral no aspecto da corrupção é sempre importante, mas acho que o eleitor olha vários candidatos que apontaram dedo para mim em 2018 e vê onde foram parar e onde eu estou. Não tem uma alma viva no Rio para dizer que eu pedi propina, corrupção, apesar de ter estado no poder por tanto tempo e ter dialogado com essas pessoas. O Rio inteiro delatou, gente... E não tem ninguém para dizer que pedi uma sacanagem, um favor, nada. 

Como vê o cenário presidencial para 2022?

Não vejo nada, tá doido. Eu quero saber do Rio de Janeiro. Minha cidade está numa situação muito crítica para eu tratar de eleição nacional. Vou tratar da minha cidade e trabalhar em parceria com o presidente da República e com o governador.

O senhor, se eleito no Rio, é um palanque certo para o Doria?

Imagina. Não sou palanque certo para nada nem para ninguém. Sou palanque certo para o Rio de Janeiro. 

Cogita renunciar para concorrer ao governo estadual?

Menor condição, não posso. Quis ser governador, infelizmente não obtive vitória. Acho que a cidade precisa de um prefeito que se dedique pelo menos nesses quatro anos. Certamente não sairei para disputar eleição. 

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