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Saindo de fininho

Os movimentos do governo nos últimos dias configuram um recuo no conflito com o PMDB, orientado por uma visão marqueteira que subestimou o poder da ação política.

JOÃO BOSCO RABELLO, O Estado de S.Paulo

16 Março 2014 | 02h02

A presidente Dilma Rousseff fragmentou as decisões capazes de atenuar o confronto para descaracterizar o recuo.

Somadas, porém, elas não deixam dúvidas quanto ao seu conteúdo concessivo. Aos R$ 400 milhões de emendas liberadas, soma-se o apelo por telefone do ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante (PT-SP), ao deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), pelo adiamento da votação do Marco Civil da Internet, ante o risco iminente de nova derrota na Câmara.

O PT, por seu turno, acena com o enquadramento dos diretórios regionais à orientação de ampliar o apoio aos candidatos peemedebistas.

Em outro cenário, Dilma afaga em almoço no Alvorada o governador Sérgio Cabral, seu vice e candidato à sua sucessão, Luis Fernando Pezão, e o prefeito Eduardo Paes. Foi à matriz da crise que motiva mais Eduardo Cunha: o cenário carioca.

Revela a presidente com o gesto que identifica em Cabral parte do estímulo a Cunha para sustentar a guerra contra o governo.

Não por acaso, se eximiu de responsabilidade pela candidatura do senador Lindbergh Farias (PT), estopim do rompimento entre PMDB e PT no Estado, com potencial para afetar diretamente a campanha de sua reeleição no terceiro maior colégio eleitoral do País.

Dilma transferiu a culpa ao seu mentor, aliado e cabo eleitoral, o ex-presidente Lula, restando explicar como o silêncio com o qual consentiu a manobra a absolve da cumplicidade.

A declaração não produziu qualquer efeito no PMDB, descontadas as declarações institucionais de lealdade de Cabral, Paes e Pezão - de resto, um dever de comensais para com anfitriões.

O que vale como avaliação real é a manifestação do presidente do PMDB do Rio, Jorge Picciani, para quem a autoria é secundária, importando o fato concreto de que a aliança estadual foi rompida por iniciativa do PT - e assim se mantém.

Dilma age para reduzir os danos da guerra com o PMDB. Sabe-se, contudo, que peças danificadas não voltam ao estado natural, ainda que reparadas por um artífice hábil, o que não é absolutamente o caso.

O dano é o da confiança que, em política, como na economia, é o cristal da relação. O PMDB não confia no PT, porque sabe que o rival conspira para enfraquecê-lo.

Como atesta o presidente do PT do Rio, Washington Quaquá, ao minimizar o apoio de Dilma a Cabral: "Ela é candidata, tem que agradar ao interlocutor".

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