Russomanno contra o fantasma do 'cavalo paraguaio'

Candidato chega à reta final tentando evitar repetição de 2012, quando ficou fora do 2º turno

Valmar Hupsel Filho, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2016 | 21h00

De terno, calça jeans, camisa e sapatos sociais, um homem percorria a feira de um bairro de periferia no início de uma tarde quente de setembro cumprimentando a todos enquanto era filmado por uma equipe de TV e meia dúzia de belas assessoras. Em meio à confusão gerada pela cena inusitada, uma senhora se aproxima dele – que é o centro das atenções – e lhe faz um pedido: "Me ajuda a encontrar minha irmã que está desaparecida há mais de 10 anos".

Em um tom baixo de voz, que só abandona quando é contrariado, o homem promete ajuda para depois da eleição e entrega à senhora seu cartão onde se lê: Celso Russomanno (PRB-SP) – deputado federal. Uma assessora anota seus contatos e demanda. Entre frutas e verduras ouvem-se exclamações como "Olha, é o Celso Russomanno da TV". Quem se aproxima ganha uma foto e um autógrafo.

Apesar de ser bacharel em Direito, Russomanno tornou-se conhecido nacionalmente como repórter de TV, principalmente em programas voltados para a defesa do direito do consumidor. Foi essa fama que o credenciou a entrar para a política. Já se elegeu cinco vezes como deputado federal – a última vez como o mais votado do País, com mais de 1,5 milhão de votos – mas nunca exerceu cargo no Executivo. Nas ruas, repórter e político se confundem a ponto de muita gente cumprimentar o "artista" sem saber que ele é candidato.

Aos 60 anos, Russomanno chega à reta final de sua segunda candidatura à Prefeitura de São Paulo tentando se afastar de um fantasma chamado "efeito 2012". Há quatro anos, liderou as pesquisas até dias antes da eleição, mas perdeu pontos de forma tão vertiginosa que sequer chegou ao segundo turno.

Este ano confirmou ser bom de largada. Iniciou a corrida eleitoral na liderança, sustentada pelo recall alcançado nos programas de TV, mas no fim de agosto começou a perder pontos. Na segunda metade de setembro foi ultrapassado por João Doria (PSDB) e passou a temer o termo "esfarelar". "Desta vez o povo de São Paulo está vacinado", disse ele na última sexta-feira, antes de uma carreata pelo bairro de São Mateus.

Tal qual 2012, o comunicador Russomanno começou a cair quando abriu a boca. Há quatro anos, sua proposta de oferecer tarifa proporcional para quem circula pelos bairros chegou aos ouvidos dos eleitores com a seguinte mensagem: quem mora longe vai pagar mais. Foi fatal. Este ano, o início do declínio coincidiu com declarações sobre a ilegalidade do aplicativo Uber, a proposta de isolar a Cracolândia e a afirmação de que se posicionasse sobre a reforma trabalhista sua candidatura “naufragaria”, o que deixava subentendido que votaria contra os trabalhadores.

Ele também foi alvo de intensa campanha negativa de adversários. Em 2012, foi marcado como o candidato da Igreja Universal do Reino de Deus. Desta vez, conseguiu se desvencilhar dessa imagem, mas passou a ser alvo de uma intensa campanha negativa promovida principalmente pela candidata Marta Suplicy (PMDB). A peemedebista dedicou boa parte de seus programas em rádio e TV para mostrar depoimentos de ex-funcionários de seu restaurante em Brasília, que o acusavam de não pagar direitos trabalhistas. Um duro golpe para quem se notabilizou como defensor dos consumidores.

Um dos coordenadores de sua campanha, o deputado Marcelo Squassoni, também foi alvo de denúncias de uso de notas frias para justificar gastos de sua cota parlamentar.

Russomanno credita à falta de tempo de TV sua dificuldade de se defender. Boa parte disso se deve à insegurança jurídica que permeou sua pré-candidatura por causa de uma condenação por peculato. Por quatro anos, ele empregou em sua produtora de vídeo uma funcionária de seu gabinete em Brasília. Somente no início de agosto o Supremo Tribunal Federal revogou a decisão em primeira instância, liberando a candidatura.

Naquele momento as articulações políticas já haviam sido feitas e partidos que orbitavam em torno de sua candidatura migraram para os adversários, principalmente para Doria. Ficaram apenas o PSC e o PEN, ambos com pouco tempo de TV. De última hora, o PTB entrou na aliança e lhe deu a vice, Marlene Campos Machado, uma neófita na política que tem por trás seu marido, o deputado Campos Machado.

Russomanno é a principal aposta do PRB, que tem candidatura competitiva também no Rio de Janeiro, o segundo maior colégio eleitoral. Na capital fluminense, Marcelo Crivella se mantém na liderança com larga vantagem. Em São Paulo, Russomanno terá que provar que não é um "cavalo paraguaio".

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