Rose foi elo entre Wagner e empresários

Ex-chefe de gabinete da Presidência em SP usou cargo para agendar reunião do governador da Bahia com pessoas ligadas a Paulo Vieira

BRUNO BOGHOSSIAN, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2012 | 02h00

Rosemary Noronha usou seu cargo como chefe de gabinete da Presidência da República em São Paulo para agendar uma reunião do governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), com empresários ligados a Paulo Vieira - diretor afastado da Agência Nacional de Águas, apontado pela Polícia Federal como chefe de uma quadrilha que comprava pareceres técnicos.

Rose foi indiciada por tráfico de influência na Operação Porto Seguro, por articular reuniões entre autoridades e pessoas ligadas a Paulo. Em troca de audiências com o governador baiano e outros ocupantes de cargos públicos, segundo a investigação, a ex-chefe de gabinete recebeu "favores", como viagens de navio.

E-mails interceptados pela PF mostram que Paulo pediu a Rose que marcasse uma audiência com Wagner em fevereiro de 2009 para Carlos Cesar Floriano, do grupo Tecondi, e Alípio José Gusmão, do grupo Formitex. Os dois estavam interessados em pedir incentivos fiscais ao governo baiano para reativar uma fábrica do setor químico no Centro Industrial de Aratu, na região metropolitana de Salvador. O negócio não se concretizou, segundo o gabinete de Wagner.

"Compramos uma área na Bahia. É uma área grande, onde funcionava a fábrica da Dow Química. Temos intenção de reativá-la e também ampliá-la. O presidente do nosso grupo gostaria de uma audiência com o governador. Você tem como ajudar nesse agendamento?", pede Floriano a Paulo em 9 de janeiro de 2009.

Rosemary levou 19 dias para agendar a reunião. "Acertei com o governador Jaques Wagner a audiência com o sr. Alípio (TECONDI). Pode falar em meu nome", afirmou Rose por e-mail.

Nos dias seguintes, Paulo diz a Floriano que a audiência foi "pedida diretamente" ao governador. "A agenda com o senhor governador da Bahia foi marcada para a próxima quarta (04/02/09). A audiência foi pedida diretamente ao senhor governador da Bahia pela Dra. Rosemary Nóvoa de Noronha", escreveu Paulo.

Wagner recebeu Alípio e Floriano às 16h do dia 4 de fevereiro de 2009, na sede do governo baiano, em Salvador.

Na mesma noite, César Floriano comemorou o resultado da reunião. "Os diretores do nosso grupo ficaram muito bem impressionados com a visita. Nosso projeto foi muito bem recebido e está em linha com investimentos que o governo deseja", escreveu Floriano em e-mail a Paulo. "Também gostaria de agradecer a Rose. Aliás, se você achar conveniente, gostaria de agradecê-la pessoalmente."

No mês seguinte, Paulo ofereceu a Rosemary uma viagem em um cruzeiro que tinha apresentações da dupla sertaneja Bruno & Marrone. A investigação aponta que a empresa responsável pelas passagens pertence a Floriano.

A assessoria de Jaques Wagner confirmou que o governador recebeu Alípio Gusmão e César Floriano em uma "audiência institucional" marcada a pedido da "Secretaria do gabinete da Presidência da República em São Paulo". No sábado, a equipe de Wagner havia informado ao Estado que o governador jamais havia sido procurado por Rose "para manter contato com qualquer pessoa".

O gabinete alega que o governador não tem "relação alguma" com Rosemary, mas admitiu que ele a conhece, em função do cargo que ela ocupava. O governo declarou ainda que não favorece empresários e que qualquer incentivo fiscal só é concedido após uma análise formal dos projetos em desenvolvimento.

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