Imagem Eliane Cantanhêde
Colunista
Eliane Cantanhêde
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Risco de contaminação

Civis e militares temem a simbiose entre governo Bolsonaro e Forças Armadas

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2018 | 03h00

Há quatro décadas, o general Ernesto Geisel cansou das provocações dos “bolsões radicais, porém sinceros” e, com duas canetadas, reconduziu as Forças Armadas para a hierarquia, a disciplina e a ordem. Foi o fim da politização e o início de uma profissionalização militar que atravessou diferentes governos, dois impeachment e fortes crises.

Geisel demitiu o ministro do Exército, Silvio Frota, que contestava a abertura política, e o então comandante do 2.º Exército, Ednardo D’Ávila Mello, por não conter os seus “radicais” em São Paulo. E foi assim que o presidente garantiu a “abertura lenta, gradual e segura” até a posse do também general João Figueiredo e a redemocratização de 1985.

Quanto mais o Ibope confirma a virtual vitória do capitão reformado Jair Bolsonaro e do seu vice, general da reserva Hamilton Mourão, mais cresce a dúvida: até que ponto um governo com forte apoio de militares e com participação de altas patentes poderá contaminar as Forças Armadas, com a volta da politização, dos grupos e das consequentes disputas internas de poder?

Ninguém, dentro e fora do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, considera possível ou viável um golpe militar clássico a esta altura, mas quem descarta uma democracia tutelada, ou seja, uma tutela militar sobre o governo civil democraticamente eleito?

Na Venezuela, sempre tão jogada no colo do PT (e com boas razões), o regime Hugo Chávez começou exatamente assim como o governo Bolsonaro está para começar no Brasil: com o desgaste monumental do Congresso, dos partidos e dos políticos; um grau de corrupção insuportável; índices de violência assustadores; um discurso de descrédito da mídia, das instituições, das próprias eleições. Não é preciso dizer no que deu. A democracia, a economia, as empresas, o emprego, a imprensa e as condições sociais implodiram.

Bolsonaro se prepara para assumir com uma bancada própria na Câmara (o PSL elegeu 52 deputados, só atrás do PT) e espera que ruralistas, evangélicos, a “bancada da bala” e o próprio Centrão venham por gravidade. Assim, ele já pode dar um cala-boca nos que o imaginavam ilhado no Planalto, sem condições de governabilidade. Força no Congresso, ele deverá ter.

O problema é saber qual será a simbiose entre o governo Bolsonaro e as Forças Armadas. Mourão, Oswaldo Ferreira, Aléssio Ribeiro Souto e Augusto Heleno são da reserva, mas todos chegaram a generais de quatro estrelas, o mais alto grau da carreira, e conviveram a vida inteira com o atual Alto-Comando do Exército. Mourão, inclusive, fazia parte dele. As visões de mundo, de política e de comportamento são iguais, assim como a velha visão “nacionalista” da economia.

Além de condenar duramente a violência na campanha, Bolsonaro deveria também parar de defender a ditadura e dar sinais de que não fará um “governo militar”, assim como os comandantes deveriam deixar claro que a candidatura, por mais apoios que tenha de militares, não é das Forças Armadas. Isso pode reduzir dois temores: o dos civis diante da volta do regime militar, e o dos militares diante da contaminação política dos comandos e das tropas.

Para começar, ele deve parar de desacreditar as urnas eletrônicas, elogiadas no mundo todo. E deve desestimular as fake news grosseiras e os ataques ao MP, ao meio ambiente, às reservas indígenas, aos currículos das escolas e, claro, à mídia. Governo entra, governo sai, a mídia continua no mesmo lugar: crítica, vigilante, um contrapeso às verdades de ocasião e às tentações do poder. É seu papel na democracia.

FHC tem mágoa da mídia, o PT vivia às turras com a mídia, os bolsonaristas se unem contra a mídia. Mas, se é ruim com ela, é muito pior sem ela. Não é, Venezuela?

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.