Risco calculado

Da redução dos juros do Banco do Brasil e da Caixa Econômica até a adoção de uma atitude belicosa em relação aos bancos privados, a presidente Dilma Rousseff organizou de maneira notável a estratégia de redução de possíveis danos políticos decorrentes da alteração na remuneração da caderneta de poupança.

DORA KRAMER, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2012 | 03h08

Roteiro irretocável: agiu primeiro, aumentou o tom do discurso do combate aos juros altos, "cresceu" para cima dos bancos escolhendo seus lucros exorbitantes como o inimigo maior a ser combatido - ou seja, elegeu um adversário já devidamente detestado - e depois deu o que em tese seria a má notícia.

Essa mesma competência aplicada à inepta articulação da base congressual livraria o Planalto de muitos dissabores e faria de Dilma uma governante mais completa, para não dizer uma pessoa de noção democrática mais acurada.

Se do ponto de vista da economia Dilma agiu corretamente no tocante às consequências, é tema para análise de quem entende do riscado. Nossa questão diz respeito a efeitos político-eleitorais e ao eventual prejuízo aos altos índices de aceitação popular da presidente.

Há o perigo do desgaste? Sem dúvida, mas governar é também correr riscos. O tema é sensível e não por outro motivo seus antecessores evitaram transitar por esse terreno a despeito da necessidade de mexer na poupança para prosseguir no caminho da redução dos juros.

O então presidente Luiz Inácio da Silva passou perto, mas recuou diante da grita geral de associação de quaisquer mudanças no mais seguro e popular investimento do País com o confisco Collor-Zélia de 1990. Lá se vão mais de 20 anos, mas o fantasma ainda assombra e muito.

Descontada a opção pela desonestidade explícita - que, diga-se, provavelmente o PT não teria pejo em adotar se não fosse governo - a oposição não pode ligar uma coisa à outra por ausência completa de sustentação nos fatos.

A presidente ficou nesse episódio com uma boa margem de manobra para enfrentar o debate no campo da política. Enquanto a economia estiver bem, realmente é bem pouco provável que o governo colecione perdas junto à opinião pública justamente pela combinação da ação impopular com o discurso de viés claramente populista, com o objetivo de marcar a imagem da Dilma heroína.

E como não há oposição cuja identificação com a sociedade seja minimamente significativa, ela pode atuar livremente ao mesmo tempo no ataque e na defesa.

No caso da poupança, foi o que aconteceu.

Contas abertas. Aprovada em 25 de outubro de 2011 e sancionada pela Presidência da República em 18 de novembro (junto com a lei que criou a Comissão de Verdade) para entrar em vigor no prazo de seis meses, a Lei de Acesso à Informação pode ser usada por qualquer cidadão interessado em saber dados oficiais.

Portanto, é de se supor que sirva de base legal a quem quiser pedir ao governo do Rio de Janeiro esclarecimentos sobre datas das viagens do governador Sérgio Cabral Filho ao exterior, assim como o destino, a finalidade e os detalhes sobre despesas.

Há, além desse, outro instrumento: o pedido de certidão sobre o fato - ao contrário da nova lei, já regulamentado - a ser encaminhado à Casa Civil do governo do Estado. O prazo para resposta é de 15 dias.

Sinais exteriores. Um parlamentar que não se perdoa por não ter notado que havia uma discrepância entre o personagem virtual e a personalidade real do senador Demóstenes Torres foi alertado em outubro último de que havia algo de errado com ele, durante uma viagem a Nova York: o excesso de gastos.

A mulher do parlamentar em questão estranhou as roupas usadas pela mulher de Demóstenes e disse ao marido que eram de marcas cujos preços não cabiam no salário de senador. Hoje, lembrando o episódio, o congressista se penitencia: "A ficha deveria ter caído ali".

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