Revisão de tema histórico preenche lacunas

Ao publicar o caderno Meninos do Contestado, o Estado traz de volta à discussão, na avaliação de historiadores, três fenômenos centrais da história do Brasil: a eterna luta dos desassistidos por um lugar para viver, o papel da ação repressiva dos militares - que se desenhava e teve papel crucial em levantes posteriores - e o esquecimento a que são relegados tantos episódios importantes da vida do País.

GABRIEL MANZANO, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2012 | 03h06

"É um trabalho bem estruturado e que preenche uma lacuna, ao mostrar que tais episódios não ocorrem só no sertão distante. E por mostrar como é antiga a questão da terra, não tem só o MST", diz Carlos Guilherme Mota. "Recuperar o episódio, que chega ao seu centenário, é uma iniciativa oportuna, pois nossa história anterior aos anos 50 ou 60 foi pintada sempre em tom muito oficial", acrescenta outro veterano estudioso da vida do País, Boris Fausto.

Para Lincoln Secco, professor de História da USP, o trabalho do jornalista Leonencio Nossa e do fotógrafo Celso Júnior "nos dá conta de como mudou pouco a história das classes desfavorecidas. Posseiros que chegam devastando, grileiros ou o Estado que vêm depois expulsando todo mundo - e, ao final, a continuação da pobreza naquela área".

Boris Fausto enfatiza o esquecimento: "Só mais recentemente a historiografia mudou de rumos. A partir de então, o Contestado se tornou uma referência das grandes lutas do campo na Primeira República". Lincoln Secco elogia o jornal por aplicar-se "na busca da história oral, coisa que os jornais habitualmente não fazem mais". Ele acha valiosas as referências aos generais Setembrino de Carvalho e Tertuliano Potyguara - este chamado depois, em debates no Clube Militar, de "assassino do Contestado". O historiador destaca, ainda, que a ação repressiva dos militares, já vista em Canudos, se repete depois em episódios como os 18 do Forte e nos levantes de 1922, 1924 e 1932.

Para Guilherme Mota, o caderno traz à memória a grande definição de José Honório Rodrigues: "A história do Brasil é a história da contrarrevolução preventiva permanente" - tema que ele mesmo aborda em sua História do Brasil. É oportuno, diz ainda, perceber já naquela época a presença de interesses internacionais. "E, mais que tudo, o estranho silenciamento sobre a atuação dos militares ao longo da nossa história."

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