'Resolver problemas estruturais demora mais', diz pesquisador sobre fim da miséria

Estudo do pesquisador Arilson Favareto, da Federa do ABC, compara 2000 com 2010 e revela que renda melhorou, mas a desigualdade continua

Entrevista com

ISADORA PERON, O Estado de S.Paulo

24 Fevereiro 2013 | 02h03

Ao lançar na semana passada o slogan "O fim da miséria é só um começo", a presidente Dilma Rousseff antecipou-se às críticas dos que certamente apontariam as fragilidades sociais vividas pelas famílias que agora irão passar a receber uma renda de R$ 70 por pessoa. A avaliação é do professor da Universidade Federal do ABC e pesquisador do Cebrap Arilson Favareto, que publicará nas próximas semanas um estudo que compara a evolução dos indicadores de renda, pobreza e desigualdade entre 2000 e 2010. A pesquisa mostra que em 70% do País a melhora desses três indicadores caminhou junta, mas a desigualdade persiste.

Se o fim da miséria é só um começo, o que vem a seguir?

O governo foi muito feliz com esse slogan, porque foi uma maneira de se adiantar às críticas. Com isso, o governo dialoga com a crítica de que o patamar de R$ 70 é muito baixo e com o fato de que a pobreza não se mede apenas pela renda.

E o que o governo precisa fazer agora para avançar?

Uma vez resolvidos os problemas da pobreza monetária, os outros começam a aparecer. A tendência é que, ao longo dos próximos dez anos, a agenda do combate à pobreza se desloque da questão monetária para os problemas mais estruturais, porque as próprias famílias vão começar a cobrar isso. A questão antes era emergencial: precisava-se de dinheiro para comer, para comprar roupa e remédio. Uma vez resolvidos esses problemas, as preocupações das pessoas começam a ser outras. Elas vão querer mais qualidade na educação, mais saúde, obras de saneamento, essas coisas.

E como dar isso às pessoas?

Hoje o desempenho dos indicadores nesse campo é muito heterogêneo: você tem indicadores onde as coisas vêm melhorando num ritmo significativo, como é o caso sobretudo dos ligados à área da educação, e outros, como é o acesso a pontos de água e saneamento, onde o progresso é extremamente lento. Então o desafio agora é intensificar o progresso desses indicadores.

Por que o saneamento básico avançou tão pouco?

Resolver os problemas estruturais é mais demorado. Transferência de renda é algo mais rápido, é só dar o dinheiro na mão das pessoas. Fazer saneamento envolve obras de infraestrutura, o que leva bem mais tempo.

Que outros indicadores vão precisar de mais atenção do governo federal?

Os que medem a qualidade na educação, que têm apresentado algum progresso, mas estão em patamares muito baixos. E também a quantidade de médicos por habitantes, particularmente no interior do País. Há uma dificuldade grande hoje de convencer bons profissionais a ir trabalhar em regiões distantes.

Sua pesquisa mostra que, apesar do aumento da renda, a desigualdade permanece. Por quê?

Isso acontece porque o governo tem uma estratégia meio esquizofrênica: por um lado, ele melhora a situação dos pobres, com a transferência de renda, mas, por outro, com os repasses do BNDES, ele estimula a expansão da pecuária, uma atividade que concentra terra e renda. Essas pessoas que recebem o Bolsa Família ficam menos pobres, mas, ao mesmo tempo, o governo estimula um tipo de uso dos recursos naturais que é altamente concentrador.

As críticas ao baixo crescimento do PIB do pré-candidato tucano à Presidência Aécio Neves serão suficientes para levar a oposição de volta ao poder?

Esse problema é distante para a maioria da população. Embora o País tenha crescido pouco nesses últimos anos, a melhoria dos indicadores sociais foi expressiva. Mesmo com problemas para ainda serem resolvidos, a gente vê uma melhoria no entorno e é por isso que o discurso da oposição não cola. Se você visitar uma família do sertão da Paraíba, vai perceber que a educação e a saúde das pessoas é melhor hoje do que era há dez anos. Para desespero do PSDB, os problemas estruturais desse estilo brasileiro de desenvolvimento só tendem a ser sentidos daqui a uma década ou mais.

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