Renovar é relativo

Não é só no PSDB que há resistência à conjugação do verbo renovar. José Serra reagiu ao alerta do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sobre a necessidade de o partido apostar em nomes novos dizendo que essa agenda "é do PT".

DORA KRAMER, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2012 | 02h07

Mas entre petistas também há oposição à ideia sob o argumento de que ela serviu para o caso de São Paulo, mas não necessariamente deve ser uma regra aplicada ao partido como um todo.

O deputado Cândido Vaccarezza, por exemplo, andou dizendo que a "renovação" foi mal entendida. O que era uma estratégia eleitoral acabou sendo vista como um princípio a ser observado.

O presidente da Câmara, Marco Maia, numa frase desvenda as razões da resistência: "Se for conferir nas bases, há manutenção de poder das antigas lideranças".

Quer dizer, não é assim de estalo que se removem raízes há muito tempo plantadas. Inclusive porque novo não significa necessariamente bom, muito menos é prudente menosprezar o valor da experiência e o poder do apego de quem tem seus espaços consolidados.

A respeito disso o DEM tem muito a contar sobre sua radical e malsucedida manobra de mudança, quando achou que abandonaria a sigla PFL, afastaria a velha direção e estaria tudo resolvido.

O experimento revelou-se no geral desastroso, não obstante venha da nova geração um êxito significativo do partido nessa eleição, com ACM Neto em Salvador aos 33 anos, caçula dos novos prefeitos.

Comprovando a relatividade dos fatos, porém, o outro eleito pelo DEM foi o veteraníssimo João Alves, novo prefeito de Aracaju aos 71 anos, o mais velho dos 26 vitoriosos nas capitais.

Em favor dos "renovadores" note-se que o eleitorado corroborou a tese. A taxa de reeleição foi a mais baixa desde o advento da renovação de mandatos: das 85 maiores cidades do País, os atuais prefeitos perderam em 50, sendo que nas capitais apenas seis foram reeleitos.

Se o critério for de idade - que objetivamente não serve para nada, mas compõe o quadro -, 56% dos 26 eleitos nas cidades-sede dos Estados têm menos de 50 anos.

Dado mais consistente diz respeito à influência dos governadores: apenas nove obtiveram sucesso.

Significa que ao menos nas grandes cidades o peso da máquina não é páreo para a vontade autônoma do dono do voto.

Tom maior. O senador Álvaro Dias não está entre os tucanos que usam o bom desempenho do PSDB em algumas localidades, notadamente do Norte e Nordeste, para evitar publicamente a autocrítica.

Celebra os êxitos, mas também pondera que o partido deve tirar lições de resultados adversos, com destaque para São Paulo e Paraná.

Ele não acha que o caminho seja a renovação pura e simples. "Nossa ação é que precisa ser mais contundente", diagnostica e conclui: "Com esse discurso morno não vamos a lugar algum".

Risca de giz. Confirmada a vitória de Fernando Haddad, o prefeito Gilberto Kassab telefonou para a cúpula do PT a fim de deixar patente que a alegada lealdade a José Serra é página virada.

Não só por isso, mas principalmente pelo conjunto da obra, muita gente no PSDB defende que o partido declare oficialmente Kassab como adversário.

O problema é quando, como e se os tucanos farão mesmo essa demarcação de terreno. Vai depender da construção de um difícil entendimento interno.

Troca de guarda. A direção nacional do PSDB olha o pífio e há tempos decrescente desempenho do partido no Rio de Janeiro e conclui que não pode enfrentar mais uma eleição sem uma reformulação completa na seção regional do terceiro maior colégio eleitoral do País.

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