FILIPE ARAUJO/AE-28/3/2011
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Renegado em 2008, Alckmin se torna vital para Serra

Governador tem atendido a pedidos de candidato tucano, observa dados da campanha e serve de vacina a ataques contra renúncia

JULIA DUAILIBI, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2012 | 03h05

Renegado pelo núcleo serrista na última disputa pela Prefeitura de São Paulo, em 2008, o governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB) se tornou agora o "avalista" da campanha do candidato tucano a prefeito, José Serra.

No momento em que perdeu o primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto para o candidato Celso Russomanno (PRB), Serra cola sua imagem na do governador. Alckmin participa de agendas de campanha do candidato, atendendo a pedidos feitos pelo próprio Serra, como a visita ao Instituto de Reabilitação da Rede Lucy Montoro, em agosto.

Na semana passada, o governador articulou pessoalmente o apoio do Sindicato dos Motofretistas ao tucano. Diariamente, Alckmin telefona para a coordenação da campanha para receber os trackings - pesquisas por telefone que captam oscilações no eleitorado.

Também na última semana, recebeu o presidente do PSDB, Sergio Guerra, no Palácio dos Bandeirantes, e conversou com o senador Aécio Neves (MG) por telefone. Demonstrou confiança e receitou sangue frio, ao dizer que eleição é como onda: muda.

Mas a maior evidência do apoio de Alckmin está na propaganda eleitoral. Nos programas, Serra cita o governador mais do que o petista Fernando Haddad menciona o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (leia abaixo). Dos 16 programas do tucano que já foram ao ar na TV, em sete há depoimentos de Alckmin.

Nas pesquisas encomendadas pelo PSDB, o governador aparece como o tucano mais bem avaliado, na frente do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e de Serra. "Se o Alckmin apoiar o Serra, ele até que tem chance", disse um eleitor em um dos grupos feitos pelos tucanos. Segundo o Ibope do fim de agosto, 40% consideram ótima ou boa a gestão no Estado, contra 17% que a veem como ruim ou péssima.

Para os tucanos, Alckmin pode transferir popularidade a Serra e fortalecer a inserção no eleitorado do PSDB, que flerta agora com Russomanno. O governador também exerce um papel de fiador de Serra em seu ponto mais vulnerável: a renúncia da Prefeitura em 2006 para disputar o governo estadual. Serra exibiu filmes dizendo que cumprirá todo o mandato, e Alckmin vem chancelando a declaração.

2014. Aliados de Serra elogiam o apoio de Alckmin, mas não sem uma observação. Dizem que, por "questão de estilo", o governador não mergulha de cabeça na campanha. Os secretários, por exemplo, estariam afastados da disputa. Reclamam ainda da relação com o candidato do PMDB, Gabriel Chalita, que usa fotos de Alckmin na TV e destaca a amizade com o tucano.

Pragmático, Alckmin costura alianças para sua reeleição em 2014, deixando portas abertas com siglas que não embarcaram na campanha de Serra. Não retaliou, por exemplo, o PTB, quando o partido apoiou Russomanno. Ao contrário, deu parabéns à cúpula do PRB. Também assistiu ao PSB e PP migrarem para a campanha de Haddad, apesar de fazerem parte de seu governo.

A relação de Alckmin e Serra tem altos e baixos. Hoje, caminham juntos, apesar da resistência do círculo mais íntimo do governador - que credita a Serra a derrota em 2008, quando Alckmin perdeu para Gilberto Kassab, reeleito com apoio de serristas. "Não têm o menor compromisso com o PSDB. Têm compromisso com o poder", disparou à época Alckmin contra tucanos.

Um ano depois, aceitou convite para ser secretário de Desenvolvimento Econômico, feito por Serra, então governador, que buscava unificar o PSDB paulista após o racha provocado pela disputa municipal em 2008.

"Uma derrota do PSDB em São Paulo pode custar a reeleição em 2014. Ele sabe disso. Por isso, apoia Serra", analisa um tucano. Ciente disso, Alckmin foi quem mais pressionou Serra a entrar na eleição. O tucano decidiu disputar depois que o aliado Kassab ameaçou apoiar o PT.

Hoje, a análise mais corrente do PSDB segue uma lógica: se Serra perder em outubro, será uma derrota praticamente pessoal, embora tenha reflexos em 2014. Se vencer, os louros serão divididos com Alckmin.

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