Remoção de obstáculos

Fácil não vai ser, o senador Aécio Neves tem perfeita consciência disso, mas acha que também não é uma missão tão impossível assim enfrentar o governo na eleição presidencial de 2014.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

03 Abril 2013 | 02h06

"Estamos nos preparando, sabendo que o segredo é entender o eleitorado e despertar a emoção das pessoas", diz ele, com o cuidado de incluir um "se eu for mesmo escolhido candidato do PSDB" ao início de cada frase.

Como nessa altura a ressalva é um recurso de linguagem meramente formal, às vezes esquece o protocolo e discorre livremente sobre o roteiro que já começou a cumprir para construir uma candidatura competitiva.

O trabalho por ora é de remoção de obstáculos. Primeiro trata da consolidação do apoio da seção paulista do partido a fim de superar a "agenda da divisão". Sem isso, é tempo perdido, conforme ensinaram as últimas três derrotas presidenciais.

O passo seguinte, a eleição (de preferência por unanimidade) para a presidência do PSDB. Em maio, numa convenção que produza fotografia simbólica: Fernando Henrique Cardoso representando o legado da estabilidade econômica, José Serra traduzindo unidade política, os jovens eleitos ou com bom desempenho na eleição de 2012 retratando o "time novo" e o comandante do partido subentendido como candidato a presidente da República.

E por que a necessidade de ter a presidência do PSDB como suporte para a candidatura se esta não é uma etapa indispensável nem uma prática comum nos partidos?

Em primeiro lugar, porque o PSDB não é um partido comum. Tem a marca de divisão, da ausência de comando e de referência de ação e pensamento. Basta lembrar que o ex-presidente Fernando Henrique até bem pouco atrás falava sozinho em seus alertas em defesa de uma urgente reorganização geral do partido. Suas declarações tinham mais repercussão entre petistas que no meio dos tucanos.

Quando o candidato está no comando, ainda que delegue as funções administrativas fica no controle político da máquina. Um exemplo: tem poder de influir nas alianças regionais para que elas acompanhem os interesses da candidatura presidencial.

Outra razão, esta apontada pelo próprio Aécio: "Se estiver na presidência, não ficarei o tempo todo sendo questionado sobre a divisão do partido nem preciso falar oficialmente como candidato".

Resolvida a questão da tomada das rédeas, o senador se impõe um prazo de "seis a oito meses" para convencer as pessoas de que pode representar uma boa alternativa ao governo do PT.

Avisa logo que o estilo vai continuar ameno. Na forma, pelo menos. "Com ajuda de um esquema bem profissional", ele ainda ajusta os detalhes de linguagem, busca entender as demandas do eleitorado, incorporar os maneirismos da sedução, em suma: "Encontrar o melhor caminho para chegar lá".

O conteúdo está escolhido. O alvo, claro, a presidente Dilma Rousseff. "Ela foi eleita com fama de boa gestora. Vou mostrar que não é nada disso, que as questões reais não foram resolvidas, que não tem compromisso firme com a inflação e tem uma base política imensa que aprisiona e paralisa o governo."

Na visão de Aécio Neves, o aumento do endividamento das famílias, o efeito da inflação sentido no preço dos alimentos e a queda no consumo darão sustentação factual ao discurso.

A tática do ataque está entendida. E a defesa, o que propõe? Duas vertentes: uma, resgatar passado, não como bandeira, mas como "vacina" para não deixar que o PT pose de dono da estabilidade econômica, inventor dos programas sociais e defensor de patrimônios como a Petrobrás.

Outra, "explicar que se governos do PSDB já fizeram bastante podemos fazer mais e melhor, mostrando que o PT de repente precisa de um novo estágio na oposição. Até para rever e recuperar seus antigos valores".

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