Relatório da PF aponta elo entre magistrado e indiciado no Acre

Alvo da Operação G7, Narciso Mendes esteve com desembargador do TJ e procuradora antes da votação de processo

RICARDO BRANDT / CAMPINAS, O Estado de S.Paulo

13 Junho 2013 | 02h11

Um relatório complementar da Polícia Federal entregue ao Supremo Tribunal Federal aponta tentativa de tráfico de influência envolvendo o desembargador do Acre Pedro Ranzi, a procuradora-geral de Justiça, Patrícia Rego, e um dos principais indiciados na Operação G7, que investiga suposto esquema de cartel montado no Estado para fraudar contratos públicos com a participação de membros do primeiro escalão do governador Tião Viana (PT).

No relatório, os agentes da PF afirmam que o empresário e ex-deputado federal Narciso Mendes, um dos 29 indiciados na Operação G7, procurou o desembargador do TJ Pedro Ranzi por telefone e se encontrou com ele pessoalmente em novembro do ano passado, antes de uma votação no tribunal de um outro processo em que foi denunciado por envolvimento em um esquema de prostituição infantil. Por não ter relação com as investigações da G7, a PF produziu um relatório complementar sobre o caso.

Mendes foi um dos 19 acusados em 2012 pelo Ministério Público do Acre por envolvimento em uma suposta rede de exploração sexual infantil que agenciava menores para programas com empresários de Rio Branco - a rede foi desmantelada pela Operação Delivery.

Durante o escândalo, Mendes estava com o telefone interceptado pela Operação G7, quando foi flagrado pelos agentes da PF ligando para o magistrado dias antes da votação do caso Delivery. Ele teria se encontrado com o desembargador na sede do Tribunal Regional Eleitoral (TRE).

Segundo o documento, instantes depois do encontro no TRE, o desembargador ligou para o investigado para falar sobre um julgamento de pedidos de soltura no caso Delivery que ocorreria no dia seguinte. O TJ analisou também em janeiro uma tentativa das defesas de anular as principais provas do processo.

Os agentes também registraram um encontro no mesmo período entre o empresário e a procuradora-geral de Justiça do Estado, Patricia Rego. Os diálogos gravados indicam que o encontro pode ter sido intermediado pelo pai da procuradora, José do Rego, que é secretário de Articulação Institucional do governo Tião Viana.

Denúncia. Mendes foi denunciado inicialmente pelo Ministério Público do Estado por manter relações sexuais com menor de idade em situação de prostituição. À polícia, a menor e uma agenciadora confirmaram que o empresário pagou para manter relações sexuais com a menor. Porém, na fase final do processo (que aguarda julgamento), o Ministério Público pediu a absolvição do empresário.

"Durante a instrução do caso na Justiça, as duas testemunhas mudaram seus depoimentos e inocentaram o denunciado, o que enfraqueceu as provas contra ele", disse o promotor Jorge Mariano.

O relatório da PF, que está sob segredo de Justiça, foi entregue ao STF e ao CNJ na semana passada. Outro relatório referente a suposta proximidade do desembargador com os investigados serviu de embasamento para que o ministro Luiz Fux determinasse que qualquer decisão do caso G7 não pode ser votada pelo TJ do Acre.

Ranzi disse que foi procurado por Mendes para falar sobre a Delivery. "Recebi ele, falamos pelo telefone, mas nunca disse que ia fazer isso ou aquilo." Patricia Rego confirmou que foi procurada pelo empresário, mas negou irregularidades. Mendes não foi localizado pela reportagem.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.