Relatório da CPI dedica mais de 300 páginas a jornalistas

Odair Cunha cita contatos de profissionais da imprensa com Cachoeira; principal alvo é Policarpo Júnior, da revista 'Veja'

FÁBIO FABRINI / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2012 | 02h08

O relator da CPI do Cachoeira, Odair Cunha (PT-MG), dedicou 349 páginas de seu relatório ao envolvimento de profissionais de mídia com a organização do contraventor Carlos Cachoeira. No texto pede o indiciamento de cinco jornalistas e o aprofundamento de investigações sobre sete. A lista inclui autores de reportagens contra políticos do PT e aliados do governo que usavam a quadrilha como fonte.

Quase 85 páginas do capítulo são voltadas à conduta do redator- chefe da revista Veja em Brasília, Policarpo Júnior, alvo de pedido de indiciamento por formação de quadrilha. Ele é autor de denúncias contra o ex-ministro José Dirceu, e de reportagens como a que revelou corrupção no Ministério dos Transportes. As escutas da Polícia Federal mostraram que o editor se reunia com Cachoeira e conversava sobre informações para suas investigações.

Ao interpretá-las, o relator descreve Policarpo como um "jornalista pronto a atender aos desejos do bicheiro", que se valia das reportagens para atingir "interesses criminosos". Analisando diálogo em que Policarpo pede a Cachoeira que "levante umas ligações" sobre o deputado Jovair Arantes (PTB-GO), o relator sugere que o editor estaria encomendando um grampo ou investigação que "poderia ou não caracterizar algum delito". Num outro ponto, cita pedido do contraventor, aceito pelo jornalista, de que publicasse nota em coluna da revista. O texto foi enviado por e-mail, mas não foi publicado.

Cunha diz que Policarpo serviu aos interesses de Cachoeira ao publicar matéria sobre o entra e sai de autoridades no quarto em que se hospedava Dirceu, em Brasília. Ele também alega que faltou ética em matéria sobre a ascensão da Delta como contratada do governo no mesmo período em que teria contratado serviços de consultoria de Dirceu. "Policarpo Jr. aderia aos estratagemas e utilizava as informações que lhe repassava o grupo criminoso, na exata medida em que tais enredos pudessem se coadunar com os caminhos e as visões de mundo que orientam a linha editorial do conglomerado que o emprega", afirma Cunha. Procurados pelo Estado, Policarpo e Veja não se pronunciaram.

Os outros indiciados são Wagner Relâmpago (formação de quadrilha), da TV Brasília; Patrícia Moraes, do jornal Opção de Goiás; Carlos Antônio Nogueira, do jornal O Estado de Goiás, e João Unes, do jornal online A Redação.

Para Cunha, além de formar quadrilha, os três últimos lavaram dinheiro. O relator descreveu as relações do grupo de Cachoeira e seus aliados com os jornalistas Cláudio Humberto, Jorge Kajuru, Mino Pedrosa, Magnho José, Renato Alves, Luiz Costa Pinto e Eumano Silva. Diretor da revista Época na ocasião, Silva tinha contatos com aliados de Cachoeira, que forneceram subsídios para reportagem que denunciou irregularidades no Turismo. Cunha pediu que o Ministério Público os investigue.

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