Relação dinheiro e voto é maior nas grandes cidades

Análise estatística com base nas prestações de contas e resultados eleitorais de mais de 14 mil candidatos mostra correlação entre arrecadação e chances de vitória

Rodrigo Burgarell, iGuilherme Duarte e Daniel Bramatti, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2016 | 05h00

A relação entre votos e poder econômico é mais forte nos grandes municípios do que nos pequenos, segundo análise estatística feita pelo Estadão Dados com base nas prestações de contas de cerca de 14 mil candidatos a prefeito e seus respectivos resultados eleitorais.

A análise mostra que, na média de todas as cidades, existe uma clara correlação entre dinheiro e poder – quanto mais o candidato arrecada, maiores suas chances de vencer. E, quanto maior o município, mais alta é essa correlação.

Dados preliminares das receitas e dos gastos dos candidatos indicam também que, apesar das mudanças significativas nas regras das eleições deste ano, o peso do poder econômico variou pouco desde a disputa municipal de 2012.

Para medir a relação entre recursos de campanha e resultados na urna, o Estadão Dados dividiu os municípios brasileiros em dez grupos, de acordo com o tamanho de sua população. Nos dados eleitorais de cada um deles foi aplicada uma técnica estatística chamada regressão linear – que serve para medir a relação entre duas ou mais variáveis, resumindo-a em um único fator.

Proporção. Os resultados mostraram que, nos 556 menores municípios (10% do total), para cada 1% a mais de dinheiro arrecadado, os candidatos tiveram, em média, 0,24% a mais de votos. Já no outro extremo da escala, nas 556 maiores cidades, essa relação foi de 0,62% a mais de votos para cada 1% adicional de arrecadação.

A diferença pode parecer pequena, mas é significativa. Imagine uma disputa em que a candidata Maria arrecade 10% a mais que o adversário João. Se o município deles representar a média das pequenas cidades, Maria terá 2,4% a mais de votos (0,24% vezes 10). Em uma cidade grande, dada a mesma distribuição de recursos, a vantagem da candidata seria de 6,2% (2,6 vezes maior).

Maria e João, nesse exemplo, representam a média de milhares de candidatos. É claro que nem sempre a campanha mais rica é vitoriosa – mas é isso o que aconteceu, em 2016, na média dos 5.568 municípios brasileiros, ou em cada fatia quando eles são agrupados de acordo com o tamanho de sua população.

No ranking populacional das cidades, as 10% maiores vão de São Paulo, a líder, com cerca de 11,9 milhões de habitantes, até Araci, na Bahia, na posição 556.ª, com pouco mais de 55 mil moradores. Já entre as 10% menores nenhuma tem mais de 3.300 cidadãos.

Causa e efeito. A correlação entre votos e arrecadação não deve ser lida como causalidade – a estatística não é capaz de detectar se um determinado candidato recebeu mais doações porque era o favorito ou se virou o favorito ao receber mais contribuições.

Os números também não mostram o porquê de haver diferenças entre os grandes e pequenos municípios. Uma hipótese plausível é a de que, nos menores colégios eleitorais, o dinheiro tenha menos influência por causa da maior proximidade entre candidato e eleitores, muitos dos quais têm relação de convivência direta. Já nos grandes centros não existe a situação em que “todos se conhecem”, e a conquista de votos depende da montagem de estruturas políticas maiores e mais caras.

A análise feita pelo Estadão Dados da relação entre despesas de campanha e votação obtida pelos prefeitos é ainda exploratória, ou seja, não definitiva.

Apenas essas duas variáveis foram analisadas – há outras que também podem influenciar o resultado, como o tempo de propaganda no rádio e TV de cada candidato ou a força do seu partido em determinada região. “Ainda é preciso estudar os dados com mais calma para medir o efeito do dinheiro nas eleições”, afirma Emerson Urizzi Cervi, cientista político da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Cervi e o também cientista político Bruno Speck são autores de estudo publicado em 2013, com base nos dados da campanha eleitoral do ano anterior, que analisou o peso do dinheiro e do tempo de rádio e televisão na disputa pelo voto. Segundo o pesquisador, em municípios menores, a “memória eleitoral” – ou seja, os votos obtidos pelo partido do candidato na eleição anterior – teve importância quase tão grande quanto os recursos financeiros de campanha. Já nos grandes municípios, a memória eleitoral quase não importou – foi o tempo de TV ou de rádio que contou mais, além da quantidade de recursos financeiros que cada campanha mobilizou.

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