Relação de Marina com Partido Verde amarelou

Mágoa de mão dupla entre ex-ministra do Meio Ambiente e comando do PV inviabiliza aliança em 2014; verdes querem candidatura própria

Pedro Venceslau e Isadora Peron, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2013 | 02h17

Na fase final de criação de seu novo partido, a Rede Sustentabilidade, a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva e o partido que abrigou sua candidatura à Presidência em 2010, o PV, vivem um dilema. Uma aliança com a ex-legenda seria natural do ponto vista programático, mas a aproximação sofre resistência entre os verdes e os militantes da Rede.

O PV recebeu quase 20 milhões de votos com a candidatura de Marina Silva em 2010. A disputa presidencial de 2014 será a primeira na eleição brasileira que contará com três agremiações que se dizem ambientalistas - além do PV, a Rede de Sustentabilidade e o Partido Ecológico Nacional (PEN). Os verdes estão divididos entre lançar uma candidatura própria ou apoiar como coadjuvantes a provável campanha de sua ex-correligionária.

Os "marineiros" que entraram no PV em 2009 e saíram logo após a eleição não perdoam o núcleo duro da sigla, comandada há mais de uma década por José Luiz Penna. E vice-versa. Essa mágoa de mão dupla pode prejudicar os dois projetos de poder. "O PV é um partido sem democracia interna, com pouca participação da militância nas decisões", afirma Pedro Ivo, membro da executiva provisória da Rede.

"A aproximação seria interessante para o PV e para a candidatura de Marina, mas a resistência é recíproca. O campo que os dois ocupam é pequeno demais para duas candidaturas", diz o ex-deputado Fernando Gabeira (RJ).

O casamento entre Marina e o PV foi selado com pompa e circunstâncias em agosto de 2009 no buffet Rosa Rosarum, em São Paulo. Apesar do clima festivo, já era visível uma delimitação clara de espaço. Na ocasião, além de Marina, um grupo de aliados da ex-ministra do Meio Ambiente assinou a ficha de filiação e passou a integrar um conselho político que daria as cartas no partido na eleição.

Depois do pleito, porém, a relação começou a degringolar rapidamente. Marina cobrava democracia interna de Penna e seus apoiadores, enquanto eles respondiam que Marina queria dominar o partido. A situação ficou insustentável quando a ex-senadora passou a defender abertamente a saída de Penna da presidência.

O embate terminou com a debandada de Marina e seu grupo em julho de 2011. Já naquele momento, falava-se na criação de um novo partido, que poderia se chamar Partido da Causa Ecológica. Dois anos depois, a sigla seria batizada de Rede.

Aliança. Defensor da tese da aliança entre PV e a Rede, o deputado federal Alfredo Sirkis (RJ) - que continua no PV até a legalização da nova legenda - argumenta que, do ponto de vista ambientalista, seria incoerente dois partidos "verdes" não estarem juntos numa eleição.

Levantar a mesma bandeira da sustentabilidade, porém, não tem sido o suficiente para cicatrizar feridas do passado. O vereador de São Paulo Ricardo Young (PPS), ex-PV e futuro Rede, diz que hoje, com Penna na presidência, seria impossível uma aliança. Sirkis lembra, no entanto, que "apoio a uma eleição presidencial não se recusa". Bazileu Margarido, também da Executiva da Rede, argumenta na mesma direção: "Política não é uma questão de mágoa, é uma questão de coerência e prática".

Se descartar uma aliança com o PV, sobram poucos partidos com os quais a Rede poderia se unir. O discurso "sonhático" prega uma nova forma de fazer política e o afastamento dos partidos tradicionais.

Questionado sobre quais partidos teriam afinidades com a Rede, Young cita PPS, PSOL e PSB. O primeiro orbita na área de influência do PSDB e sonha atrair José Serra para a disputa presidencial. O pequeno PSOL já decidiu que lançará um candidato próprio. E o PSB trabalha a todo vapor para erguer a candidatura do governador de Pernambuco, Eduardo Campos.

'Personograma'. Quando questionado sobre a hipótese de embarcar no projeto de Marina, Penna é categórico. "Tomamos a decisão de ter candidatura própria. No nosso personograma, o Fernando Gabeira é a primeira opção", diz. A determinação do dirigente esbarra na resistência do "presidenciável". Gabeira já disputou uma eleição nacional. Em 1989, era o mais cotado para ser candidato a vice do petista Luiz Inácio Lula da Silva na disputa presidencial, mas foi vetado por setores radicais do PT. Acabou disputando como nanico. Hoje, não demonstra entusiasmo em tentar novamente.

Apesar de dizer que não planeja disputar nenhum cargo em 2014, ele pondera que nada é irrevogável e reconhece que as manifestações de junho mudaram muito o cenário político nacional. "A evolução dos acontecimentos abriu uma chance maior de confrontar o governo. O PV precisa definir com clareza em que campo está: se é oposição ou situação."

Reservadamente, dirigentes verdes dizem que a negativa de Gabeira é apenas uma questão de timing político. Prova disso seria sua intensa agenda de viagens pelo Brasil em eventos do partido. Um integrante da direção executiva do PV lembra que ele esteve em todas as cidades brasileiras com mais de 200 mil habitantes. "As pessoas enxergam minhas viagens pelo Brasil como se eu tivesse uma agenda de candidato. Sou curioso. Sou candidato a conhecer", desconversa.

Para Gabeira, a tentação de entrar na campanha pelo governo fluminense é maior do que um pleito nacional. Ele diz ter sido procurado pelos principais postulantes do Rio - Luiz Pezão (PMDB), Lindbergh Farias (PT) e Anthony Garotinho (PR). Todos pediram seu apoio e deixaram as portas abertas para o cargo de vice ou senador. Enquanto tenta convencer Gabeira, o PV trabalha com outras opções para 2014. O ex-petista Eduardo Jorge, que foi secretário de Meio Ambiente da capital paulista, é o segundo nome do "personograma" verde para disputar o Palácio do Planalto. Correndo por fora aparece uma opção sem ligação histórica com a política: o escritor de livros de autoajuda Augusto Cury, que é filiado ao PV. "Ele vendeu 10 milhões de livros", lembra Marco Mroz, presidente do partido em São Paulo e membro da direção nacional da legenda.

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