FABIO MOTTA/ESTADÃO
O cientista político Andrei Roman, da empresa de Big Data Atlas Político FABIO MOTTA/ESTADÃO

Rejeição de eleitor encarece campanha nas redes sociais nas eleições 2018

Com alta de custos, candidatos reveem estratégia para propaganda paga; especialistas dizem que ficou mais difícil conseguir adesão

Adriana Ferraz e Marianna Holanda, O Estado de S.Paulo

16 Julho 2018 | 05h00

Festejada pelos políticos como uma alternativa mais em conta em tempos de escassez de recursos para campanhas eleitorais, a propaganda paga nas redes sociais tem surpreendido os marqueteiros pelo custo crescente e resultado prático cada vez mais difícil de ser alcançado. A depender do conteúdo de um post patrocinado no Facebook, se paga até R$ 2 por uma “curtida” ou novo “fã”, contra R$ 0,5 até o começo do ano. Por causa do valor considerado elevado, pré-candidatos já passaram a reavaliar suas estratégias de marketing nas redes sociais durante as eleições 2018.

Segundo especialistas ouvidos pelo Estado, os preços seguem dois fatores: a rejeição do eleitorado em geral diante de um anúncio político na sua própria página da rede social, o que dificulta a aceitação do conteúdo transmitido; e a falta de transparência das empresas no momento da cobrança do serviço – diferentemente de emissoras de TV e rádio, não há uma tabela de preços única para páginas nas redes.

A ferramenta que impulsiona posts pagos no Facebook, por exemplo, funciona como num leilão. É possível impulsionar a partir de R$ 1. O anunciante determina o valor que deseja investir, o público que quer atingir (discriminando sexo, idade e cidade), o período da ação de publicidade e a meta a se alcançar, como número de curtidas ou novos seguidores, os chamados “fãs”.

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De acordo com a mensagem impulsionada, esse custo-benefício tem se tornado cada vez mais caro, segundo Moriael Paiva, vice-presidente da área digital da Ideia Big Data. “Uma curtida custa agora R$ 2 e com tendência de alta ao longo da campanha. Todo mundo estava empolgado com isso, já que o impulsionamento é uma das grandes novidades dessa eleição, mas vai ser preciso muita estratégia e conhecimento para o resultado ser o esperado e o dinheiro não ir para o ralo”, disse.

O cientista político Andrei Roman, da empresa de Big Data Atlas Político, também avalia que a estratégia deve ser o ponto-chave das campanhas digitais. Para ele, o ambiente de mídias digitais está mais competitivo, o que pode ser um “balde de água fria” para quem pensava que poderia alcançar eleitores em potencial com poucos recursos. “Quem tem a melhor estratégia e mais dinheiro, tende a conseguir melhor desempenho”, afirma Roman.

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A eficácia dos impulsionamentos é calculada pelas equipes de campanha a partir de uma conta: divide-se o valor empregado na campanha pelo resultado obtido em curtidas ou novos seguidores. Por exemplo, se determinado candidato investiu R$ 1 mil em um post que rendeu 500 novos fãs, cada um deles “custou” R$ 2.

Planalto. Entre os presidenciáveis, o uso da ferramenta é diversificado. Tem quem não use esta ferramenta, como o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) e o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-RJ). Há quem o faça com parcimônia, como a ex-ministra Marina Silva (Rede) e o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), com, respectivamente, dois e um anúncios, até a sexta-feira passada. O terceiro grupo é formado por quem investe pesado nesta alternativa. 

O presidenciável do Novo, João Amoêdo, por exemplo, gasta cerca de R$ 35 mil por mês com o impulsionamento de posts. O valor é 10% maior em relação ao que estava previsto inicialmente por sua equipe. 

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Nesta sexta-feira, 13, Amoêdo tinha três anúncios pagos publicados. Na semana passada, eram cinco impulsionados no ar e 1,1 milhão de seguidores. Ele tem seis vezes mais “fãs” que o campeão até aqui em número de anúncios pagos publicados, Henrique Meirelles (MDB). Também na sexta, o ex-ministro tinha impulsionado seis publicações – uma semana antes, foram 18. A equipe do presidenciável não revelou os valores e usou a mesma justificativa da pré-campanha de Amoêdo: trata-se de uma “estratégia sigilosa”. Este último, contudo, confirmou que está mais caro anunciar no Facebook. Os gastos das campanhas serão informados nas prestações de contas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Dados. Candidato à reeleição, o deputado federal Floriano Pesaro (PSDB-SP) disse que elevou de R$ 400 para R$ 1 mil por semana o investimento em propaganda digital. “Percebo que quanto mais impulsiono, mais caro fica. Mas acho que ainda vale muito à pena, mesmo com essa alta no preço. Não dá para comparar o custo de um anúncio com uma propaganda no rádio, TV ou jornal”, disse. 

A estratégia de Pesaro é abusar da ferramenta na pré-campanha, quando ainda há “espaço” na linha do tempo dos usuários. “Depois, acho que vai ter tanto post de político, que vai ser difícil alcançar um bom resultado por um custo razoável.”

A lei não obriga o Facebook a apontar anúncios durante a pré-campanha, mas a plataforma abriu esses dados há duas semanas. Neles, é possível acompanhar os anúncios do pré-candidato na sessão “Informações e anúncios”. Questionado sobre preços cobrados, o Facebook não quis comentar.

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Especialistas cobram ajustes em resolução do TSE

Texto que regula conteúdo patrocinado é considerado vago nas redes sociais; ex-ministro do tribunal fala em transparência sobre formação de preços

Adriana Ferraz e Marianna Holanda, O Estado de S.Paulo

16 Julho 2018 | 05h00

Especialistas em Direito Eleitoral ouvidos pelo Estado consideraram insuficientes as regras criadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para regulamentar conteúdo patrocinado por candidatos nas eleições 2018. Eles defendem maior transparência, principalmente no caso dos critérios adotados para a formação de preços.

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Para o ex-ministro do TSE Henrique Neves, as regras do impulsionamento são muito “genéricas”. “Nos anúncios em jornais, consta o valor cobrado pela publicidade. Dessa forma, o cidadão pode ir na prestação de contas e checar se é o mesmo valor que o candidato declarou. Pode também ver se é diferente do cobrado a outros candidatos. É fundamental esse controle”, afirmou o ex-ministro.

A tese de Neves é que, no artigo que trata do impulsionamento de anúncios na rede social, onde se determina que deve constar o CNPJ ou CPF do responsável e um indicativo de propaganda eleitoral, poderia também ser incluído o valor gasto naquela publicação. Ele disse que há jurisprudência para que o tribunal corrija isso, mas, segundo ele, o ideal seria que fosse feito via Legislativo. 

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O advogado Gustavo Guedes, especialista em Direito Eleitoral, também defende que o valor pago em cada patrocínio seja declarado. Ele propõe, inclusive, a revisão da classificação empresarial do Facebook, para evitar qualquer tipo de abuso.

“Para quem não tem tanto tempo de TV, essa ferramenta é fundamental. E, diante do uso crescente, acho que já é hora de o TSE enfrentar uma questão importante, que é definir se o Facebook, por exemplo, é ou não um meio de comunicação”, disse o advogado.

Para o professor de Direito Eleitoral do Mackenzie Alberto Rollo, não há a necessidade de se revisar o status de empresa da rede social, mas é preciso criar regras para seu potencial de atingir eleitores. 

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“A lei não cuidou de cercar da mesma forma (os impulsionamentos de anúncios no Facebook) que outras mídias. É um forma nova de propaganda, que a gente ainda está adaptando. Mas daria para aperfeiçoar para a próxima eleição”, avalia Rollo.

Procurado, o Facebook afirmou que está desenvolvendo uma nova ferramenta na qual será possível acompanhar todos os anúncios de políticos, preço médio pago e público almejado, e tudo isso será armazenado por sete anos. Será informado também qual o público almejado pelo impulsionamento e qual foi o gasto médio do anúncio. Segundo a empresa, o Brasil deverá ser o segundo País a ter acesso a este tipo de recurso. O lançamento, ainda de acordo com a empresa, deve ocorrer em agosto, com o início da campanha oficial.

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