Reincidência no trabalho escravo chegou a 59%

Dados da OIT indicam que grande maioria de trabalhadores liberados no País já tinha vivido antes sob coerção

WLADIMIR DANDRADE, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2011 | 03h04

Pesquisa da Organização Internacional do Trabalho (OIT) divulgada ontem revela que 59,7% das pessoas encontradas pelo governo federal em condição de trabalho escravo entre outubro de 2006 e julho de 2007 já haviam passado por essa situação anteriormente. Esses trabalhadores já tinham vivenciado experiências de privação de liberdade por conta da distância geográfica das fazendas, da servidão por dívida ou coação por parte de seguranças armados. Para a entidade, a presença de reincidentes é uma clara demonstração de que a fiscalização no Brasil não é suficiente para atingir as causas estruturais do problema.

Dos entrevistados que relataram experiências anteriores com privação de liberdade no trabalho, 44,5% foram impedidos de deixar o serviço porque o "gato" - o recrutador de mão de obra - não forneceu transporte à fazenda que é distante ou de difícil acesso. Dívidas impediram o abandono para 32,8%, a existência de seguranças armados foi motivo para 15,1% dos trabalhadores e castigos físicos foram relatados por 11,8%. "As situações analisadas ocorreram em vários Estados, sendo os mais frequentes o PA, a BA, o MT e GO", afirma o documento Perfil dos Principais Atores Envolvidos no Trabalho Escravo Rural no Brasil.

De acordo com a OIT, dos trabalhadores que passaram por situações anteriores de privação de liberdade, apenas nove (12,6%) haviam sido resgatados pelo Grupo Especial de Fiscalização Móvel, proporção que significa que, para cada resgatado, oito não foram alcançados pela fiscalização.

Para o coordenador do projeto de Combate ao Trabalho Escravo da OIT, Luiz Machado, muitos casos não chegam às autoridades por conta da falta de denúncias. O documento destaca ainda que faltam "opções de trabalho decente e alternativas de geração de renda, o que obriga os trabalhadores a se sujeitarem às mesmas condições precárias de trabalho vividas anteriormente". Segundo Machado, é preciso avançar na punição dos empregadores. "Precisamos avançar na punição penal", explica.

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