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Refém do qualunquismo?

O cientista político Marcus André Melo, professor da Universidade Federal de Pernambuco, defende a tese de que a força eleitoral dos governos petistas entre os mais pobres não se deve à emergência de um fenômeno político novo, o “lulismo”, mas a um bem mais antigo, o “qualunquismo”. Enquanto o lulismo seria a adesão dos mais pobres (sobretudo os localizados nas regiões mais carentes) a uma liderança e seu projeto político redistributivo, o “qualunquismo” é a adesão desse mesmo contingente social ao governo do dia, qualquer que seja ele.

Cláudio Couto, O Estado de S. Paulo

26 de outubro de 2014 | 00h00

O termo vem do italiano “qualunque”, que significa “qualquer um”. A ideia é que o eleitor mais pobre, bem mais dependente das ações do governo, vota em qualquer um, desde que este lhe proporcione benefícios palpáveis. E como quem tem condições efetivas de levar ao eleitor benefícios palpáveis é o governo do dia, o eleitor qualunquista é, por isso mesmo, governista. Assim, nos lugares onde há mais pobres tende a haver mais voto governista.

Melo defendeu a ideia em coluna publicada em janeiro no Valor Econômico. Nela apontou “que nas últimas cinco eleições presidenciais o voto nessas regiões tem sido invariavelmente governista. (...) Nesse sentido, o voto petista concentrado no Norte/Nordeste não representou uma ‘marcha para o Nordeste’, mas apenas a chegada do partido ao poder”.

Além de instigante, a tese é preocupante para o PT. Se confirmar hoje o que apontaram as últimas pesquisas, vencendo de forma apertada o pleito presidencial, o partido se defrontará com um desafio para o futuro próximo: ampliar sua base de apoio, recuperando ao menos parcialmente setores perdidos desde 2006 - as camadas médias. Se perder, o desafio será dobrado e mais arriscado, pois terá de buscar essa recuperação ao mesmo tempo em que perderá inapelavelmente para o PSDB a condição de partido no governo e, consequentemente, destinatário do voto qualunquista.

O problema aumenta considerando-se que, paradoxalmente, o sucesso dos governos petistas em promover a ascensão econômica de amplos setores pode solapar as bases eleitorais do partido nas eleições presidenciais. Vejamos por que.

As pesquisas de opinião e a distribuição geográfica do voto por zonas homogêneas têm demonstrado que: (1) as camadas mais ricas têm sido cada vez menos propensas a votar no PT nas eleições presidenciais desde 2006; (2) a “classe C”, alentada nos governos petistas, é o terreno principal de disputa das candidaturas situacionista e de oposição, até por ver em seu próprio esforço (mais do que nas ações do governo) a causa de seu progresso; (3) é nas classes D/E que reside o eleitorado governista mais fiel.

Se a redução da pobreza continuar, minguando as classes D/E e aumentando as camadas médias (A, B e C), o contingente de votos qualunquistas tende a diminuir. Afinal, os que ascenderem serão menos gratos a qualquer governo, enquanto os que permanecerem na base da pirâmide - em número decrescente - pesarão cada vez menos na eleição.

Portanto, diante de qualquer resultado o PT precisará buscar uma reconciliação com as camadas médias no próximo período. As últimas pesquisas do Ibope mostram que Dilma perde votos para Aécio quanto mais jovem, rico e escolarizado for o eleitor, e mesmo na classe C ela tem pequena desvantagem. Quando perguntados sobre sua opinião acerca do PT, 49% dos eleitores com ensino médio e 63% dos com ensino superior dizem ter imagem negativa; a situação melhora entre os menos escolarizados, mas está longe de ser confortável. A imagem do partido é boa para 60% dos que recebem até 1 salário mínimo; na classe C ela o é para só 36%.

A viabilidade eleitoral do PT no futuro próximo exigirá do partido reformular políticas, posturas e discursos. Terá que sensibilizar esses segmentos que crescem, mas lhe escorrem pelos dedos.

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