Redutos do PT ainda ignoram Haddad

Pré-candidato a prefeito abre hoje turnê por bairros de SP em busca de popularidade

FERNANDO GALLO, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2012 | 03h06

"Haddad? O nome me é familiar, mas não me lembro da pessoa, não", afirmou Cecílio Berto Oliveira, morador do M'Boi Mirim, na zona sul de São Paulo, que passava ontem ao lado do diretório zonal do PT na região, na mesma rua onde 37 adolescentes foram apreendidos em um baile funk no fim de janeiro. "Sou petista. Ele é do PT?"

Por ali também transitava o vizinho Diogo Gomes. "Como é o nome dele? Nunca ouvi falar. Ave Maria! Nem sei quem é Haddad." Funcionária de uma lanchonete em frente, dona Áurea fez coro: "Haddad? Não lembro. Acho que já coloquei umas faixas pra ele aí na frente".

Com a tarefa de se apresentar para os eleitores petistas como Oliveira, Gomes e Dona Áurea, o ex-ministro Fernando Haddad inicia hoje, no M'Boi Mirim, um périplo pela cidade. Em todas as segundas e sextas-feiras o pré-candidato visitará bairros para ouvir líderes comunitários sobre os problemas locais, conversar com comerciantes e participar de reuniões plenárias nas quais debaterá com a população do bairro propostas para seu plano de governo.

O ex-ministro pediu à sua equipe de pré-campanha que não divulgasse uma parte da agenda que terá hoje na zona sul. Oficialmente, ele participa apenas de uma plenária às 17 horas com líderes da região, que deve durar cerca de duas horas e deverá ter a participação do presidente do diretório municipal, Antonio Donato, e de vereadores. Antes, porém, Haddad pretende conversar com lojistas já na parte da manhã e visitar um hospital no começo da tarde.

Segundo um interlocutor, Haddad acredita que a imprensa pode atrapalhar sua missão de conhecer o cotidiano da cidade, da qual esteve afastado por oito anos - até o começo deste ano, quando se desligou do Ministério da Educação para disputar a prefeitura da capital.

Na segunda-feira, roteiro semelhante será seguido na Brasilândia, outro bairro da periferia, este na zona norte da capital.

Cabos eleitorais. No M'Boi Mirim o ex-ministro terá de conquistar eleitores saudosos da senadora Marta Suplicy, que em 2008 teve 60% dos votos válidos no 1.º turno, e 68% no 2.º, na zona eleitoral de Piraporinha, que engloba o bairro.

"A Marta foi importante na duplicação da Estrada do M'Boi Mirim e regularizou o transporte irregular por aqui", afirmou Rodrigo Estabel, diretor da escola de samba Boêmios da Vila. "Acho que a Marta seria uma candidata mais forte", sustentou Oliveira.

Apesar do alto recall da ex-prefeita, a aposta geral é a de que o ex-presidente Lula será o grande cabo eleitoral de Haddad, mais do que a senadora e a presidente Dilma Rousseff. "O Lula hoje é o mais forte, no Brasil todo", disse Estabel. Questionado se Lula elegeria até um poste, Valdemiro José da Silva, o Didi, dono de um bazar no bairro, emendou: "De repente, elege até um jeguinho".

Dos moradores do M'Boi, o ex-ministro ouvirá reclamações de todos os tipos: faltam médicos nos prontos-socorros, há um problema sério de violência, adolescentes frequentam bailes funk, existem pontos sérios de afunilamento do trânsito. Faltam também opções de lazer. "Não tem uma quadra de esporte, não tem nada. Tem a gente aqui na rua e só", disse Estabel, referindo-se aos cursos de percussão que oferece "para forçar as crianças a sair do funk".

Estratégia. A estratégia de iniciar a campanha na periferia contraria a ala do PT que avalia que estas regiões da cidade já votam no partido independentemente do candidato. Esse segmento acredita que Haddad deveria investir na classe média e nos setores conservadores. O pré-candidato, no entanto, seguirá roteiro traçado pela cúpula do diretório municipal, que entende que o PT precisa torná-lo conhecido na periferia. De acordo com esse grupo, a transferência de votos de Lula, por exemplo, não se concretizou em 2008.

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