Rede política de Cachoeira chega a pelo menos 5 partidos

Além de Demóstenes (ex-DEM), contraventor buscou aproximação com integrantes de PT, PSDB, PP, PTB e PPS

ANDREA JUBÉ VIANNA / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2012 | 03h09

A investigação da Polícia Federal que desmantelou a chamada máfia dos caça-níqueis montada em Goiás e nos arredores de Brasília mostra que o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, apontado como chefe do esquema, controlava uma bancada multipartidária no Congresso, além de manter ligação indireta com pelo menos dois governadores. Além do senador Demóstenes Torres (GO), ex-DEM, Cachoeira era próximo de parlamentares de mais cinco partidos: PT, PSDB, PP, PTB e PPS.

Os grampos da PF na Operação Monte Carlo revelam que ele tinha relações de intimidade com parlamentares, com quem tratava de negócios e falava sobre quantias em dinheiro, devidas e a receber. Os deputados goianos Rubens Otoni (PT), Carlos Alberto Leréia (PSDB), Sandes Jr. (PP) e Stepan Nercessian (PPS-RJ), flagrados em conversas com Cachoeira, já respondem a processos na Corregedoria da Câmara. O líder do PTB, Jovair Arantes (GO), admitiu que é amigo de Cachoeira e pediu o apoio dele à pré-campanha à prefeitura de Goiânia.

O petista Rubens Otoni teve de explicar uma doação não declarada de R$ 100 mil de Cachoeira à campanha dele à prefeitura de Anápolis. Otoni disse que Cachoeira queria a ajuda dele para desenrolar a papelada de um laboratório na cidade.

O tucano Leréia ainda não explicou um depósito de Cachoeira destinado a ele, rastreado pela PF, no valor de R$ 100 mil. Leréia usava um telefone Nextel cedido por Cachoeira e habilitado nos Estados Unidos para dificultar grampos. O tucano disse que só vai se pronunciar depois que sua defesa tiver acesso ao inquérito. Ao contrário da direção do DEM, que cobrou a expulsão imediata de Demóstenes, o presidente do PSDB, deputado Sérgio Guerra (PE), pediu um tempo para que o tucano se explique. "Desejamos esclarecimentos", disse.

Leréia é aliado do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), que teve de dar explicações sobre a proximidade com o contraventor. Ele admitiu que esteve com Cachoeira em "reuniões festivas", inclusive na casa de Demóstenes. A chefe de gabinete de Marconi, Eliane Pinheiro, pediu exoneração do cargo depois de aparecer em conversas em que passava informações sigilosas sobre operações policiais que tinham Cachoeira como alvo.

Outro governador indiretamente envolvido é o petista Agnelo Queiroz, do Distrito Federal. Grampos indicam que um integrante do governo dele participou de uma operação para direcionar um contrato milionário para a máfia dos jogos. Nos grampos da PF, Sandes Jr. fala no edital de uma concorrência pública e dá satisfações sobre o recebimento de cheques, cujos valores seriam divididos com Cachoeira. O deputado declarou que era uma "brincadeira" de Cachoeira a suposta divisão dos valores. Stepan Nercessian licenciou-se do PPS para esclarecer as ligações com o bicheiro.

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