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Rápidos no gatilho

A desfaçatez anda de tal forma despudorada que a Câmara nem esperou esfriarem os corpos dos recentemente extintos dois salários extras por ano, para torná-los cadáveres insepultos na forma de aumento de verbas compensatórias à "perda" de suas excelências.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2013 | 02h09

Há dois tipos de contas a serem feitas: uma é numérica, a outra política. A Câmara fica devendo nas duas. Com a primeira promete uma economia de R$ 27, 4 milhões deixando de pagar os salários adicionais, mas vai gastar quase tudo (R$ 21 milhões) só com o reajuste daquela cota para despesas extraordinárias que não raro é usada para gastos ordinários - no sentido pejorativo do termo.

Isso sem falar na criação de novos cargos (59), duas novas estruturas (Corregedoria Autônoma e Centro de Estudos e Debates Estratégicos da Casa). A título de verniz, criou-se um tipo de ponto para controlar melhor o pagamento de horas extras dos funcionários do Legislativo.

Positivo? Sem dúvida, mas risível e até provocativo o aperto em face do afrouxamento na rubrica das benesses aos parlamentares que, segundo pesquisa recente, estão em segundo lugar entre os mais caros do mundo.

Mas dizíamos que há uma conta numérica e outra política. Nesta também o saldo é negativo. Confirmou-se a necessidade de adotar parcimônia em elogios quando o Congresso se curva à necessidade de dar cabo a exorbitâncias. Viu-se pela rapidez no gatilho para anular a economia e criação de duas esquisitices.

"Corregedoria Autônoma"? Alto lá: há uma corregedoria em funcionamento e que, pelo visto, foi posta sob desconfiança de atuar sem a necessária independência.

"Centro de Estudos e Debates Estratégicos da Casa"? Espera aí: não seria o Parlamento já um centro de estudos e debates? Não são o estudo e o debate funções do Legislativo junto com a prerrogativa de legislar e fiscalizar?

Ou bem estão sendo criadas instâncias inúteis, ao molde de sinecuras, ou mal estão sendo criadas instâncias com sobreposições de funções. Ao molde de sinecuras.

Ironia do destino. O repórter Felipe Recondo, do Estado, não precisou se envolver em torpeza alguma, como sugeriu o verbo "chafurdar" usado pelo presidente do Supremo Tribunal Federal ao reagir com grosseria à abordagem recente do jornalista, para encontrar um indício do "conluio" entre juízes e advogados de que fala Joaquim Barbosa.

Bastou cumprir o seu papel ao noticiar a existência de e-mail em que um advogado integrante do Conselho Nacional de Justiça informava a um juiz sobre uma decisão que dizia respeito à filha dele.

Ação e pensamento. A presidente exercitou com exuberância o lema do "faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço" ao pretender ensinar o padre-nosso ao vigário na visita ao papa Francisco.

Falou dos pobres em viagem de comitiva com 52 pessoas hospedadas em hotel de luxo. Invocou valores em meio à reabilitação de gente afastada do governo na dita "faxina ética" e patrocina distribuição de ministério em troca de apoio eleitoral.

E o pior... É que Marco Feliciano vai ter mais votos do que nunca na próxima eleição. Nesse caso, a pressão constrange, mas não resolve. Ou pode até ter efeito contrário ao pretendido, conferindo mais e mais notoriedade ao deputado junto a determinado tipo de público.

O sentido popularidade não necessariamente se coaduna com o conceito de qualidade.

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