R$ 200 MIL? 'Não pode ser tudo isso'

Moradoras se assustam com o valor anunciado

BRUNO BOGHOSSIAN , ESTADÃO.COM.BR, ENVIADO ESPECIAL , BELO HORIZONTE, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2011 | 03h08

O apartamento da costureira Maria da Ajuda mede "mais ou menos 36 metros quadrados", tem dois quartos pequenos, foi entregue sem revestimento no piso da sala e sua construção custou R$ 200 mil à Prefeitura de Belo Horizonte, segundo o Ministério Público. Quando ouve a cifra, a moradora do Aglomerado da Serra, favela do centro-sul da cidade, até duvida. "Não pode ser tudo isso. Se fosse de R$ 200 mil teriam colocado uma pia boa na cozinha e um piso bonito. Como não tinha nada disso, eu mesma tive que botar."

A casa em que Maria da Ajuda vivia até 2007 teria de dar lugar à Avenida do Cardoso, que corta a favela e faz parte do projeto Vila Viva. A prefeitura lhe deu duas opções: R$ 27 mil ou apartamento novo. Preferiu o apartamento.

Os edifícios coloridos que hoje abrigam parte das famílias desapropriadas têm oito apartamentos, dois em cada um dos quatro andares. Foram construídos em alvenaria estrutural e são cercados por grades que, com dois anos de vida, já começam a enferrujar. Na entrega, em dezembro de 2008, lá estavam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o prefeito Fernando Pimentel e o governador Aécio Neves.

Engenheiros consultados pelo Estado disseram que edifícios de moradia popular costumam custar de R$ 1.200 a R$ 1.400 o metro quadrado. Com as áreas comuns, vão a R$ 70 mil.

Maria da Ajuda não reclama do apartamento mas pretende vendê-lo assim que receber o título de propriedade. "Dizem que vale uns R$ 80 mil. Conheço quem vendeu por R$ 40 mil, sem o título. Não vale R$ 200 mil de jeito nenhum!"

A aposentada Ceci Fernandes Moreira, de 67 anos, também rebate sem pestanejar o valor anunciado: "Tem gente querendo vender por R$ 60 mil e não consegue".

Na sua conta, seu apartamento "deve valer uns R$ 45 mil. Fica no começo do morro e é mais valorizado". Ela também recusou a indenização e preferiu o apartamento. Não se arrepende: "Minha casa era melhor, mas aqui ficou tudo bem. Eu sou viúva e sem filhos. Tá ótimo, né?".

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