Iara Morselli/Estadão
Iara Morselli/Estadão

'Quem vencer deverá tomar posse no dia 1.º de janeiro de 2019', defende Frei Betto

O frade dominicano, que não é filiado ao PT e assessorou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, espera que o partido tenha o apoio de outros candidatos, se Fernando Haddad for enfrentar Jair Bolsonaro num provável 2.º turno

Entrevista com

Frei Betto, escritor

José Maria Mayrink, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2018 | 05h00

Ex-assessor do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto e ex-coordenador de Mobilização do Programa Fome Zero, frei Carlos Alberto Libânio Christo, ou Frei Betto, afirma em entrevista ao Estado que, se for eleito, o candidato do PT à Presidência, Fernando Haddad, agirá com total independência, ainda que se pretenda monitorá-lo. “É um bom nome, íntegro e competente, como demonstrou à frente do Ministério da Educação e à Prefeitura de São Paulo.” O frade dominicano, que não é filiado ao PT, espera que o partido tenha o apoio de outros candidatos, se Haddad for enfrentar Jair Bolsonaro (PSL) num provável segundo turno. “Quem vencer deverá tomar posse no dia 1.º de janeiro de 2019”, defende Frei Betto. Escritor e conferencista, ele acaba de publicar seu 64.º livro, Por uma Educação Crítica e Participativa (Editora Anfiteatro).

Que Partido dos Trabalhadores o candidato Fernando Haddad representa? Ele é uma renovação ou, como dizem os antipetistas, um “poste” de Lula? Por que parece haver ou ter havido resistência a ele no PT?

Nunca fui militante partidário, nem mesmo do PT, ao contrário do que muitos pensam, e ignoro as tensões internas para a escolha de Fernando Haddad como candidato a presidente no lugar de Lula. Como eleitor, considero-o  um bom nome, íntegro e competente, como o demonstrou à frente do Ministério da Educação e da Prefeitura de São Paulo.

Haddad tem prestígio e autonomia no partido? Antes e depois da confirmação de seu nome, Haddad tem visitado Lula com frequência em Curitiba. Como o senhor analisa esses contatos políticos? Adversários acreditam que Lula dará as ordens num possível governo PT.

Haddad é formado em Direito e, portanto, tem qualificação para estar inscrito entre os advogados de Lula. Por isso pode visitá-lo nos dias de semana, e faz bem ao fazê-lo, pois também estive preso (durante a ditadura militar) e sei como é importante receber visitas e se manter informado do que ocorre aqui fora. Acredito sim que Haddad tem autonomia e prestígio no PT, tanto que foi indicado candidato a Presidente. E se eleito, ainda que pretendam monitorá-lo, agirá com total independência, como fez Dilma (Rousseff) ao contrariar orientações da direção do PT. E é evidente que Lula dará palpites em um governo do PT, como aliás interfere diretamente na atual conjuntura política brasileira, embora encarcerado. Ele é hoje o maior líder popular do Brasil. Ingenuidade é imaginá-lo omisso à política.

Jair Bolsonaro arregimentou o sentimento antipetista. Essa polarização terá peso para a eleição de Haddad?

Sim, tanto que Bolsonaro continua à frente nas pesquisas. Porém, no segundo turno o antibolsonarismo fará com os que demais candidatos manifestem apoio a Haddad, o que lhe garantirá a eleição. Mas ainda que Haddad vença, o bolsonarismo perdurará sem Bolsonaro, em especial por meio de pronunciamentos antidemocráticos e anticonstitucionais de líderes das Forças Armadas. Se o poder civil não obrigar os militares a se recolherem aos quartéis nossa frágil democracia estará seriamente ameaçada.

O senhor acredita na busca de uma terceira via, como propôs o ex-presidente Fernando  Henrique Cardoso, segundo ele dirigindo-se ao eleitor? Seria uma alternativa para um provável segundo turno?

Que terceira via? Um golpe dentro do golpe, como o AI-5 de 1968? Quem for para o segundo turno disputará a eleição, e quem vencer deverá tomar posse dia 1.º de janeiro de 2019. A menos que agora, no primeiro turno, o eleitor prefira um terceiro nome, ou seja, a escolha de um candidato que dispute o segundo turno com Haddad ou Bolsonaro. Fora disso qualquer manobra é golpe dentro do golpe.

 Quais os candidatos que, em sua opinião, poderiam apoiar Haddad, se o petista chegar ao segundo turno? O PT resistiria a nomes ou partidos? Seria uma aliança em troca de cargos e distribuição de ministérios? O PT correria o risco de se desgastar politicamente, se tivesse de abrir mão de programas e princípios?

Espero que Ciro (Gomes), (Geraldo) Alckmin, Marina (Silva), (Guilherme) Boulos, (Alvaro) Dias e (Henrique) Meirelles apoiem Haddad no segundo turno, caso ele consiga chegar lá. Ou que Haddad e o PT apoiem qualquer um que for disputar o segundo turno com Bolsonaro. É possível que alguns partidos façam como Pilatos, lavem as mãos e liberem os seus eleitores para votar como acharem melhor. E qualquer candidato terá que negociar apoios no segundo turno, inclusive Bolsonaro. No caso do PT, espero que ele não abra mão, novamente, de seus princípios fundadores. Ele não deve, de novo, trocar um projeto de Brasil por um projeto de poder.

O senhor já criticou concessões feitas por Lula e Dilma Rousseff a partidos aliados de ideologias contrárias à sua. Quais os candidatos que mais se aproximam do programa do PT nessa campanha eleitoral?

Guilherme Boulos, do PSOL, que ousa propor um programa de mudanças estruturais para reduzir drasticamente as desigualdades sociais do Brasil.

Como o senhor vê a proposta do PT para uma regulamentação comercial dos meios de comunicação? Corre-se o risco de um controle social da mídia que, na prática, significasse censura?

A democratização dos meios de comunicação é uma exigência constitucional que até hoje espera por regulamentação. Todos os oligopólios, em qualquer país do mundo, desmoralizam a democracia.

O senhor escreveu recentemente um artigo sobre o percurso da democracia, século após século, desde a sua concepção pelos gregos. O futuro da democracia poderá estar ameaçado, no caso de vitória de um candidato extremista de direita ou de centro-direita?

O futuro da democracia está sempre ameaçado enquanto não se harmonizar esferas política e econômica. Não basta assegurar o sufrágio universal. Verdadeira democracia é aquela que também assegura a todos os cidadãos e cidadãs condições dignas de vida, erradicando a miséria, reduzindo a desigualdade social e garantindo os três T propostos pelo papa Francisco: teto, trabalho e terra.

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