Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

'Quem vai me pedir desculpas?', diz Gleisi após absolvição no STF

Presidente do PT concedeu entrevista coletiva para falar sobre a decisão do Supremo, que rejeitou denúncia contra ela e o marido

Katna Baran, O Estado de S.Paulo

21 Junho 2018 | 18h21

CURITIBA - A senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) disse nesta quinta-feira, 21, que passou por um processo de desconstrução de sua imagem nos últimos quatro anos e que merece um pedido de desculpas. “Quem é que vai me pedir desculpas por tudo que aconteceu?", disse a petista em entrevista coletiva para falar sobre o assunto, em Curitiba.

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Segundo Gleisi, o processo teria começado com a revelação da delação premiada que citava seu nome e durou até o julgamento da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), que nesta semana inocentou ela e o ex-ministro Paulo Bernardo das acusações de corrupção e lavagem de dinheiro em um dos processos da Operação Lava Jato

"Quem vai reconstituir os anos que eu tive de desconstrução da imagem pública, as ofensas que a minha família recebeu e que eu recebi? Não tem como recolocar isso”, questionou. “Foi uma ação cotidiana de desconstrução da imagem por agentes do Estado, pela mídia e opositores políticos. Foi muito difícil, eu não tinha o mesmo espaço para me defender. A desconstrução é difícil de apagar”, disse. A petista afirma que esse foi um dos motivos que a levou a desistir da cadeira no Senado e tentar uma vaga na Câmara dos Deputados nas eleições 2018.

Gleisi disse ainda que, no processo em que foi inocentada, foi vítima de um “conluio” entre o doleiro Alberto Youssef, delator da Lava Jato, e seu advogado, Figueiredo Basto, responsável por vários acordos de colaboração no âmbito da operação, e apontado por receber valores mensais para "proteger" algumas pessoas. “Esses dois são figuras carimbadas no Paraná, mas mesmo assim prevaleceu a voz deles. Fizeram seis versões sobre o meu caso”, apontou.

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Na coletiva, a senadora também criticou duramente a atuação do Ministério Público Federal e da própria Justiça Federal do Paraná, na qual há, segundo ela, “alto nível de politização”. “As pessoas não podem agir dessa forma, investidas nos cargos que têm, da autoridade que têm e sair numa posição afoita de fazer justiçamento e cometer barbaridades. Isso diz respeito à vida das pessoas, de instituições, de grupos. Tem que ter responsabilidade”, disse.

Representação

A senadora não descartou a possibilidade de abrir uma representação contra o União diante da sua absolvição. “Não posso tomar (medida judicial) contra o Ministério Público, que teria vontade de tomar, para que eles, enquanto categoria, pagassem pelo prejuízo. O Estado brasileiro que tem que pagar pelo dano causado pelo agente estatal que estava investido de poder. Vou pensar muito nisso porque qualquer ação que eu tome vai recair sobre o povo brasileiro e não quero que o povo pague nenhuma conta”, alegou.

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Relembre

Na denúncia, a Procuradoria Geral da República afirmava que a senadora e Paulo Bernardo receberam R$ 1 milhão desviado da Petrobrás para a campanha dela ao Senado, em 2010. O empresário Ernesto Kugler Rodrigues, também inocentado, seria o emissário do dinheiro. No julgamento, os ministros consideraram não haver provas de que o casal recebeu propina.

Gleisi ainda é alvo de outras duas denúncias, uma por lavagem de dinheiro e corrupção passiva e outra por formação de quadrilha, e um inquérito no âmbito da Lava Jato. “Estou tão tranquila e tão firme como me mantive em relação ao primeiro processo”, disse, argumentando que não há provas de seu envolvimento, apenas citações de colaboradores.

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A presidente do PT se disse aliviada com a decisão do STF e repetiu que a acusação era toda baseada em delações premiadas. “(A absolvição) colocou o processo penal nos trilhos novamente. Não se pode condenar ninguém sem provas e não se pode condenar alguém apenas com delações”, declarou, afirmando que o STF deu um “duro recado às indústrias das delações”.

A senadora vê que a decisão sobre o seu caso e o recente entendimento do STF de proibição de uso das conduções coercitivas – instrumento largamente utilizado na Lava Jato – podem ajudar na defesa de outros acusados, como do ex-presidente Lula, preso desde abril. “O Supremo foi muito forte nesse recado, de não aceitar as delações como base para condenações. Isso é muito importante e dá ao Ministério Público e à Polícia Federal uma responsabilidade imensa de não fechar delações de qualquer jeito para incriminar as pessoas ou fazer os inquéritos andarem. Tem que fechar as delações, mas produzir provas”, afirmou.

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