Quem te viu, quem te vê

No tempo da ditadura, Chico Buarque era uma unanimidade nacional, ou quase. Até os generais-presidentes Costa e Silva e Garrastazu Médici apreciavam as suas músicas mais líricas. É possível que alguns militares menos românticos e mais durões não gostassem - mas suas filhas gostavam.

NELSON MOTTA, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2012 | 03h07

Hoje, apesar de viver um dos melhores momentos de sua carreira, em plena maturidade criativa, já com uma obra monumental e lugar de honra na nossa história, Chico, que sempre se acreditou amado, descobriu nos blogs da internet que é (também) odiado. Pelas milícias partidárias que unem a ignorância e a intolerância para desqualificar uma obra e um artista pelas suas opiniões políticas. Em 1968, vaiado pela esquerda universitária, Caetano Veloso gritava em seu célebre discurso: "Se vocês forem em política como são em estética, estamos feitos". Os que hoje xingam Chico atualizam as mesmas palavras.

É um clássico da condição humana. A inveja e o ressentimento que se transformam em ódio irracional contra indivíduos vitoriosos, admirados por muita gente, que ganham dinheiro com seu trabalho, que não têm patrão nem comandante e podem viver com liberdade e independência. Sem sequer ler o que escrevem sobre eles. Para quem escreve, como militante anônimo de uma engrenagem coletiva, é a oportunidade para descarregar suas misérias e frustrações pessoais sobre o invejável invejado. Pena que ele não vai ouvir.

A política é transitória e contraditória. Pela visão do Zé Dirceu, fã de Chico, os que são contra o aborto e a favor da pena de morte e da maioridade penal aos 16 anos são "de direita". Então a maioria da classe média tão cortejada pelos políticos, que elegeu um governo de esquerda, é "de direita" e não sabe?

A ironia é que esta nova e imensa classe média, alardeada como grande vitória de governos progressistas, é cada vez mais conservadora, pelo instinto natural de manter suas conquistas recentes, casa, carro, consumo, emprego, com lei e ordem e sem sobressaltos. E também gosta de Chico Buarque.

As paixões políticas passam, a obra artística permanece. Não se afobe não, que nada é pra já.

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