Quem ri por último?

Tucanos e petistas comemoram a mais recente pesquisa Datafolha. Militantes do PT fazem festa com o empate técnico de Celso Russomanno (PRB, 26% das intenções de voto) e seu arquirrival, José Serra (PSDB, 30%). Eleitores tucanos ironizam o fato de Fernando Haddad (PT, 7%) não sair do lugar. Enquanto isso, Russomanno tira onda de quem previu sua queda. Todos felizes, na aparência. Mas só um tem motivo para rir.

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2012 | 03h09

A bateria de pesquisas Datafolha e Ibope da semana passada confirma que a eleição de prefeito ainda não entrou nas preocupações do eleitor na maioria das capitais. A intenção de voto espontânea (quando o eleitor diz, sem ajuda, o nome de seu candidato preferido) ainda é muito baixa. Em São Paulo, dois em cada três não têm um candidato na ponta da língua. Há muito espaço para reviravoltas - o que não significa que elas vão ocorrer.

As eleições costumam girar em torno do histórico de votação a favor ou contra um partido/liderança, do desejo do eleitor pela mudança ou continuidade de quem está no poder, e das características pessoais dos candidatos. A propaganda tem o poder de inclinar esses três eixos, mas raramente subverte a tendência original. O problema é que, enquanto a propaganda não começa, o eleitorado hiberna.

É a campanha que mobiliza o interesse das pessoas, deixa claro quem está de qual lado, transforma desconhecidos em candidatos, acorda o eleitor. Como a campanha não ganhou as ruas nem a TV, a fotografia captada agora pelas pesquisas reflete um cenário potencialmente distinto do de 6 de outubro, pois o pesquisador impõe um problema sobre o qual o entrevistado ainda não pensou.

PT x Anti-PT. Enquanto o eleitor começa a abrir os olhos, vale espiar os eixos estruturais da eleição paulistana. Desde 1988, ela é um embate PT vs. anti-PT. Nas seis disputas, o PT sempre chegou em primeiro ou segundo lugar. Ganhou dois pleitos e perdeu quatro: duas vezes para o malufismo e duas para tucanos e afins. Nem o malufismo nem o tucanato têm o mesmo retrospecto. Ambos ficaram fora da reta final em mais de uma eleição. Esse histórico é o principal capital de Haddad, mas insuficiente para elegê-lo.

Em duas campanhas presidenciais, Serra personificou o antipetismo. Sua intenção de voto mistura tucanos e paulistanos que preferem qualquer outro a um petista na Prefeitura. Ele estacionou no patamar dos 30% desde que se lançou candidato, mas não deve ficar ali por muito mais tempo. Na campanha de TV, Serra tentará se firmar como o mais forte antipetista e subir. Não à toa, comparou o petismo ao nazismo na semana passada. Tenta espantar o fantasma de 2008.

O risco iminente para o tucano não é Haddad, mas Russomanno. Se o candidato do PRB pintar com força para derrotar o PT, parte do eleitorado antipetista que hoje declara voto em Serra pode migrar para ele. Foi assim em 2008. Gilberto Kassab atropelou na propaganda eleitoral, ultrapassou Geraldo Alckmin (PSDB) e derrotou Marta Suplicy (PT). Para sorte de Serra, Russomanno não tem o tempo de TV que Kassab tinha.

O atual prefeito paulistano está no centro do segundo eixo estrutural da eleição: mudança versus continuidade. Com nota média de 4,4 dada pela população (ele só se atribui nota 10), Kassab é o mais mal avaliado prefeito das capitais pesquisadas pelo Datafolha. Ele acha que a propaganda eleitoral de Serra vai transportá-lo do atoleiro da impopularidade para as graças dos paulistanos. É sua última esperança.

Enquanto Papai Noel não vem, o drive da eleição em São Paulo é pela mudança. Em Belo Horizonte e Rio de Janeiro, os prefeitos são bem avaliados e lideram as pesquisas de intenção de voto. Isso não significa que estejam reeleitos, mas será muito mais difícil para os candidatos de oposição derrotá-los do que será em Curitiba, por exemplo. Para Serra, o desejo de mudança atrapalha tanto mais quanto ele aparecer ao lado de Kassab.

Sobram as características pessoais dos candidatos. Serra é universalmente conhecido e, junto com o favoritismo, carrega a rejeição de um terço do eleitorado. A propaganda de TV tentará mudar isso, mas Serra é o que o eleitor já conhece. Não tem surpresa. A tradição é sua força.

Haddad é um candidato desconhecido de um partido forte mas dividido e desmobilizado, pelo menos até agora. Para se eleger, depende menos de si do que de seus padrinhos e aliados. A novidade é sua força e sua fraqueza.

Num cenário beligerante entre petistas e antipetistas, Russomanno é um conciliador. Não tem lado. Seu mote histórico é promover o "bem" para ambas as partes. Na maior explosão do consumo popular no Brasil, notabilizou-se por defender o consumidor na TV. Pode rir agora.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.