'Quem é que tem medo do que o povo pode decidir?'

Entrevista com Pepe Vargas, ministro de Desenvolvimento Agrário

Entrevista com

Erich Decat, Venilson Ferreira / Brasília, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2013 | 02h10

O ministro de Desenvolvimento Agrário, Pepe Vargas, defendeu ontem o plebiscito sobre a reforma política ainda neste ano e criticou a oposição. Para Vargas, o Brasil tem pouca consulta popular. O petista esteve à tarde com Dilma Rousseff no Planalto. Nesta entrevista, ele comenta as manifestações pelo País e faz uma autocrítica: uma vez no poder, o PT se distanciou dos movimentos sociais.

Até novembro, o PT passará por uma campanha interna para a escolha do novo presidente. É o melhor momento?

O PED (Processo de Eleições Diretas) de 2005 (o ano em que eclodiu o escândalo do mensalão) também foi um momento de turbulência. Foi um momento importante de coesão partidária. É lógico que quem está fora entende as nossas disputas internas como fratricidas. Mas elas não são. O PED de 2005 deu argumentos para a nossa militância fazer a defesa do governo Lula. Deu argumentos para a gente organizar o partido e a militância para construir a vitória de 2006. Eu acredito que o PED 2013 tem esse papel estimulador.

Será um momento de se fazer uma autocrítica?

O PT precisa debater também o fato de ele ter crescido nas institucionalidades. Isso fez com que se distanciasse dos movimentos sociais, de norte a sul. É muito comum o PT ganhar a prefeitura e os principais quadros do PT naquele município irem para a prefeitura. O partido fica com dirigentes sem tanta experiência. Parte dos dirigentes dos movimentos sociais também vai para o governo. Isso por um lado é bom porque dá uma oxigenada nas direções dos partidos, mas por outro lado tira a experiência e capacidade de formulação. É comum ver um companheiro chegar ao governo e começar a achar que o sindicato passa a ser um incômodo, um estorvo que fica levantando reivindicações.

Como avalia a rejeição a partidos nas manifestações?

Para uma parcela dessa juventude, o PT se transformou num partido igual a outros. Cabe a nós fazermos a autocrítica. Por isso a presidente Dilma tem mérito ao propor o plebiscito.

Mas até petistas dizem que nas manifestações não há o pedido de reforma política.

Ninguém lá na rua estava com faixas de reforma política, mas quando as pessoas dizem "você não me representa", "o partido não me representa", não é uma crise política? Não é uma necessidade de uma reforma política? Nosso País faz pouco plebiscito e pouco referendo. Além disso, é uma sonora bobagem, desrespeito ao povo, uma subestimação da capacidade das pessoas achar que elas não têm capacidade de responder a um plebiscito porque é um assunto técnico.

O PT não ficou isolado nessa questão do plebiscito?

Se a gente defende a democracia, não pode achar que cada vez que o Executivo apresenta uma proposta cria uma crise institucional. A soberania de decidir sobre isso é do Congresso. Se houver disposição política, há tempo hábil para fazer um processo de consulta à população para valer na próxima eleição.

O plebiscito não é tentativa de mudar o foco dos problemas?

Esse é o argumento de quem tem medo de que o povo se manifeste. Esse é o argumento de quem defende uma democracia restrita. Quem é que tem medo do povo? É um debate meio esquizofrênico defender a democracia e ter medo de que o povo possa participar e decidir. E o argumento de que o povo não tem capacidade de decidir passa a ser elitista. Estão chamando o povo brasileiro de idiota.

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