Quando o discurso de improviso vira gafe

Dilma expõe vícios de linguagem e desorienta plateias quando não segue roteiro predefinido

PEDRO VENCESLAU, O Estado de S.Paulo

23 Dezembro 2013 | 02h03

Antes de entrar na campanha presidencial de 2010, a então ministra Dilma Rousseff, candidata ungida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi submetida a um intenso processo de media training com o marqueteiro João Santana para melhorar sua oratória. Considerada um quadro técnico, ela tinha pouca desenvoltura em palanques e diante dos microfones, o que preocupava os estrategistas petistas. Após três anos no Palácio do Planalto, a presidente surpreendeu aqueles que apostavam em um mandato eminentemente técnico e fechado no gabinete.

Entre o primeiro discurso, feito no Congresso Nacional no dia da posse, em 1° de janeiro de 2003, e o último, na inauguração da BR-448, em Porto Alegre, no último dia 20, Dilma somou 599 intervenções, segundo dados obtidos no site da Presidência da República. A média de quase dois discursos por dia está longe da alcançada por Lula, que somou 968 falas nos primeiros três anos do seu primeiro mandato, mas ainda assim é um número considerável, já que a Presidência foi a primeira disputa eleitoral de Dilma.

"Ela tem feito falas belíssimas, emotivas e com muita capacidade de explicação", celebra o deputado Edinho Silva (PT), um dos prováveis coordenadores da campanha pela reeleição da presidente. "A oratória dela melhorou muito ao longo do mandato. Dilma é hoje uma exímia oradora." Apesar dos elogios, a oratória presidencial deixou um rastro de gafes e declarações indecifráveis que tornaram-se hits na internet e memes nas redes sociais. Entre os mais populares está um pronunciamento feito no último dia da criança, em Porto Alegre.

"O dia da criança é da mãe, do pai, dos professores... mas também é o dia dos animais. Sempre que você olha uma criança, há sempre uma figura oculta, que é um cachorro atrás. O que é muito importante", disse Dilma, para espanto da plateia.

Especialistas ouvidos pelo Estado foram unânimes ao avaliar que a presidente mantém vícios perigosos em seu estilo de falar. "O perigo está na hora em que ela tenta dar um toque pessoal e parte para a fala de improviso", disse o fonoaudiólogo e professor de oratória Rodrigo Moreira, que analisou discursos de Dilma a pedido do Estado. "O nervosismo faz com que ela perca a concentração."

Foi em um momento de improviso, por exemplo, que a presidente saudou Márcio Lacerda, prefeito de Belo Horizonte, como prefeito de Porto Alegre em um discurso em Minas Gerais. Acabou vaiada pela plateia.

Em outra ocasião, chamou o prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, de Antonio Cláudio. Nos dois casos, a saída encontrada para evitar o constrangimento foi fazer piada com o erro. "Quando o erro é grave, é melhor levar no humor", afirma Moreira. " Dilma faz isso e ri de si mesma."

Outra declaração da presidente que chamou a atenção aconteceu na saída de uma reunião do G-20, em setembro, quando o País vivia o auge da tensão com os Estados Unidos devido às denúncias de espionagem. "Ontem eu disse para o presidente Obama que é claro que ele sabia que, depois que a pasta de dente sai do dentifrício, ela dificilmente volta para dentro do dentifrício. Eu disse que a gente tinha que levar isso em conta. Ele respondeu que faria todo o possível para que a pasta de dente não ficasse solta por aí e voltasse uma parte para dentro do dentifrício", disse Dilma a um batalhão de jornalistas. Não se sabe se o recado foi assimilado pelo norte-americano ou compreendido pelo tradutor.

"Por ter um perfil técnico, Dilma sente-se mais à vontade em público do que se tivesse que inventar um estilo", pondera o cientista político Cláudio Couto, professor de administração pública da FGV.

Vícios. O fonoaudiólogo Rodrigo Moreira aponta alguns vícios da oratória de Dilma. "Ela faz muitas perguntas para si própria durante a fala, o que é um vício de linguagem. Quando usado em excesso, isso cria um incomodo para quem escuta. Outro problema é a questão do contato visual, que é perdido. Se eu fosse professor de oratória dela, só usaria teleprompter."

Um exemplo do uso de perguntas foi o discurso feito no dia 17 dezembro, no Estaleiro Atlântico Sul, em Ipojuca (PE). "Nós decidimos que íamos partir para a ofensiva e implantar a indústria naval. Como? Através da garantia de demanda que os projetos da Petrobras representam. Por que isso? Porque a Petrobras é uma das maiores empresas de petróleo do mundo."

O cientista político e consultor de marketing Rudá Ricci, autor do livro Lulismo, observa que houve uma evolução importante nos discursos da presidente nos últimos quatro anos. "Dilma abandonou o obrigação de sorrir. Como ela é séria, o sorriso parecia forçado . A presidente também está dominando melhor o espaço dela na hora de falar."

Para o jornalista Eugênio Bucci, ex-presidente da Radiobrás, a presidente é tecnocrática até nos assuntos políticos. "Esse estilo não cai nas graças do povo. O discurso parece de uma auditora que fiscaliza, não que lidera. Dilma fala como uma máquina. Não parece alguém que está conversando."

Equipe de apoio. Sempre que vai falar em público, a presidente segue o mesmo ritual. O discurso é preparado por uma equipe de redatores de uma "tropa de elite" chamada GAIA (Gabinete Adjunto de Informação de Apoio à Decisão). O texto final passa ainda pelo crivo do ministro ligado à área que será alvo da fala antes de chegar às mãos da presidente, que costuma dedicar suas horas de voo para ler e memorizar o máximo possível do material. Os "cacos" de improviso vão sendo incluídos ao longo da fala. Segundo interlocutores da presidente, a linha mestra das falas é definida por João Santana, marqueteiro da campanha de 2010.

"O ghost writer ou o marqueteiro, dependendo do caso, pontua quais são as ideias-força e os momentos que merecem mais ênfase e consequentemente algum improviso para gerar empatia com a plateia. É justamente quando ela sai do protocolar que se perde", diz Rudá Ricci.

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