Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

'PT vai utilizar as eleições para fazer a defesa do Lula’

Para o petista, com o ex-presidente Lula preso, vencer as eleições deve ficar em segundo plano na estratégia do partido

Entrevista com

Edinho Silva, ex-ministro e prefeito de Araraquara (SP)

Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

04 Junho 2018 | 05h00

O PT precisa deixar mais claro internamente e para possíveis aliados que vai usar as eleições deste ano para fazer dois movimentos distintos e simultâneos. O primeiro e mais importante é a defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado e preso na Lava Jato. O segundo é eleitoral. A avaliação é do prefeito de Araraquara, Edinho Silva (PT).

Ex-ministro da Comunicação Social, Edinho é o primeiro petista de alto escalão a verbalizar que, para a sigla, a defesa de Lula é mais importante do que ganhar as eleições. A partir do momento em que isso ficar claro, ele avalia que os aliados vão entender e o ambiente na esquerda será pacificado em prol de Lula.

Qual a sua avaliação sobre a tática do PT de manter a candidatura do ex-presidente até o fim?

Penso que não há outro caminho do que o PT usar, de forma pensada e dialogada internamente, com os aliados e com a sociedade, a campanha eleitoral como o momento ímpar de defesa do legado Lula, que é maior do que o próprio Lula. Usar o momento eleitoral para que a defesa seja feita não é um erro, mas tem que ficar muito claro para os aliados e a sociedade.

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Está havendo esse diálogo?

Estou muito afastado das instâncias de direção, mas nas oportunidades que tive de diálogo vi que começa a clarear a percepção de que isso tem que ser feito abertamente. Significa que o PT estará abrindo mão de ganhar as eleições? Não.

Ganhar as eleições é importante para a retomada de um projeto nacional, mas não pode ser omitido que o momento é especial para a defesa do legado do Lula. O PT não está errado se escolher este caminho, mas isso não pode contaminar o movimento maior do qual o PT tem de participar, ter a capacidade de aglutinar forças políticas partidárias e uma articulação mais ampla do que os próprios partidos.

O PT deve priorizar a defesa de Lula no processo eleitoral?

Não tenho nenhuma dúvida. Mas penso que este movimento tem de ser racional, construído coletivamente e debatido com a sociedade. O PT vai manter a candidatura do Lula porque é a única forma de fazer a defesa dele e do legado dele. Dizer ‘olha, nós vamos usar as eleições para que este debate seja feito’ não está errado, mas tem de ser feito de forma muito clara: o PT quer ganhar as eleições, mas quer usar as eleições para fazer este debate.

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O que me preocupa? Temos que ser capazes de fazer um movimento maior do que o eleitoral, sem que uma coisa contamine a outra. O centro é a defesa do Lula e lá na frente se o Lula for inviabilizado o PT decide o passo seguinte.

É um movimento mais político do que eleitoral?

É muito difícil separar neste momento. Se ele vai ser limitado do ponto de vista eleitoral é o embate político e jurídico que dirá.

Este movimento atrapalha a relação com os aliados?

Tem contaminações. Várias turbulências criadas no último período podem ser evitadas se isso for debatido de forma mais clara.

Por exemplo?

No movimento mais amplo de construção de um campo democrático, não há porque ficarmos criando atritos ou polêmica com Ciro Gomes (pré-candidato do PDT). Ele é um personagem importante para este movimento mais amplo e, se nós dialogarmos sobre qual o papel que o PT vai cumprir neste processo eleitoral, tenho certeza que ele vai compreender, assim como o Guilherme Boulos (PSOL) e a Manuela (D'Ávila, do PCdoB).

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Eles vão entender que o PT vai utilizar as eleições para fazer a defesa do Lula. Não vai haver falsas polêmicas, falsos embates, se dissermos a eles que no momento certo estaremos juntos na disputa, mas queremos construir com eles algo mais amplo.

Essa estratégia não prejudica o PT? O governador do Ceará, Camilo Santana, disse que o PT não pode ir para o  “isolamento suicida”.

Eu entendo e concordo com o Camilo. O PT não pode ir para o isolamento. Por isso, entendo que precisamos construir um campo maior do que o processo eleitoral. Isso definitivamente nos tira do isolamento e deixa claro para a sociedade, para o Camilo, para o Rui (Costa, governador da Bahia), para o Wellington (Dias, do Piauí), para o Tião (Vianna, do Acre) e para o (Fernando) Pimentel (de Minas Gerais) qual é o papel das eleições para nós neste momento.

Deixar claro para os nossos governadores o que nós queremos do processo eleitoral neste momento, porque é tão importante para o PT tratar como centro do debate a defesa do Lula. E deixar claro que vamos tentar construir uma vitória eleitoral que, se não for nossa, seja de algum aliado.

O sr. considera correta a forma como o PT se relacionou com seus grandes doadores?

Todos estes episódios mostraram que ruiu o sistema eleitoral. Penso que depois de quatro anos precisamos pensar na retomada da estabilidade política e nas reformas que precisam ser feitas, principalmente a eleitoral.

Porque este modelo se tornou totalmente contraditório com o que queremos. O erro que o PT cometeu foi ter reproduzido o mesmo sistema eleitoral. Portanto, cometeu o mesmo erro que todos os outros partidos. Fica estranho aos olhos da sociedade a subjetividade na interpretação da lei. Isso enfraquece o Judiciário.

O sr. é alvo de processo criminal na Lava Jato. Teme essa “subjetividade”?

Tudo que sofri de acusação foi do período em que ocupei o cargo de tesoureiro da campanha (de Dilma Rousseff em 2014). Nunca participei de nenhuma reunião envolvendo a Petrobrás. Então, se a acusação contra o (ex-governador Geraldo) Alckmin (PSDB) é eleitoral, a minha é muito mais. Só que a dele está na Justiça Eleitoral e a minha está na Criminal.

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