PT sacrifica capitais em nome de aliança federal

Partido abre mão da cabeça de chapa em 10 das 26 prefeituras em disputa, maior número desde vitória presidencial; em 2004, foram só 3 concessões

BRUNO BOGHOSSIAN, ESTADÃO.COM.BR, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2012 | 03h06

Concessões feitas a partidos aliados podem levar o PT a lançar em 2012 o menor número de candidaturas próprias nas capitais desde que a sigla assumiu a Presidência, em 2003. Para acomodar as legendas que integram a base do governo federal, os petistas cogitam abrir mão de cabeças de chapa em até 10 das 26 cidades. Em 2004, isso só ocorreu em três municípios.

A estratégia de ceder espaço nas eleições é citada pela cúpula do PT como uma forma de acalmar as siglas que formam sua coalizão em Brasília ou facilitar alianças em outras cidades estratégicas, mas causa irritação a políticos do partido.

Petistas que pretendiam disputar as eleições nas capitais afirmam que as movimentações da direção nacional contribuem para enfraquecer o PT em sua base. Para eles, os benefícios dessas alianças são frágeis e o partido ficará refém de outras siglas.

O PSB já recebeu o apoio do PT em Belo Horizonte e discute acordos em Macapá e Boa Vista. O PDT terá os petistas em seu palanque em Curitiba e negocia em Maceió e Manaus. O PMDB recebeu apoio à reeleição de Eduardo Paes no Rio. O PT também pode se unir ao PTB em Teresina e ao PC do B e Florianópolis. Em Palmas, ainda estuda se lança candidato próprio ou apoia uma chapa lançada por alguma legenda da base do governo.

Muitos candidatos. "Os partidos aliados reclamam que não cedemos nada e cobram o nosso apoio nas capitais. Nesse cenário, considerando o tamanho da base do governo, estamos até com muitos candidatos nas capitais", diz o secretário de organização do PT, Paulo Frateschi, "Ninguém vai rachar ou deixar de votar com a gente no Congresso por causa disso, mas, se não abrirmos espaço, cria-se uma tensão."

Transição. Em 2004, na primeira eleição municipal sob o governo Luiz Inácio Lula da Silva, o PT lançou candidatos em 23 das 26 capitais. Só apoiou nomes de outros partidos em Maceió (PSB), Manaus (PC do B) e Boa Vista (PPS). Já em 2008, o partido abriu mão de sete candidaturas.

A desistência de candidaturas próprias costuma ser decidida por votação em encontros do PT nos municípios, mas os líderes nacionais negociam a estratégia de maneira mais ampla.

Há casos em que a cúpula do partido intervém para impor seus interesses. Em 1998, Vladimir Palmeira disputaria o governo do Rio pelo PT, mas uma interferência da direção nacional e de Lula, então candidato à Presidência, forçaram a sigla a apoiar do PDT de Anthony Garotinho.

Para o historiador Lincoln Secco, autor de A história do PT, a estratégia petista mudou depois da eleição de Lula, quando "diminuiu a força do projeto alternativo" da sigla. "Desde 2002, o centro da disputa de hegemonia já havia sido conquistado", afirma. "A direção nacional consegue impor sua política de alianças às localidades. Antes, isso gerava muita luta interna e intervenções. Hoje, a convivência é melhor porque ninguém quer confrontar o Palácio do Planalto."

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