PT reage a 'voz tucana' de FH: 'Disputa ideológica sobre privatização não acabou'

Na véspera de completar 32 anos, o PT voltou a defender o controle da mídia, pregando a democratização dos meios de comunicação, e decidiu partir para o confronto com o PSDB. Incomodada com as declarações do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, para quem os leilões dos aeroportos "desmistificam o demônio privatista", a cúpula do PT também retomou o tema privatizações e radicalizou o discurso.

VERA ROSA, ANDREA JUBÉ VIANNA / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2012 | 03h06

Uma versão preliminar de resolução política apresentada ontem ao Diretório Nacional do PT diz que "não é verdade que acabou a disputa ideológica sobre as privatizações, como afirmou uma apressada voz tucana". Mesmo sem citar Fernando Henrique, a referência ao ex-presidente não podia ser mais clara.

"Nós não confundimos concessão com privataria tucana", afirmou o presidente do PT, Rui Falcão. "Não vejo por que toda essa celeuma, já que o sistema de concessão dos aeroportos de Guarulhos, Campinas e Brasília nada tem a ver com o modelo privatista dos tucanos, que entregaram patrimônio público a preços duvidosos."

Além de adotar o mote contra a "privataria", o PT bateu mais uma vez na tecla do marco regulatório para os meios de comunicação, princípio aprovado em seu 4.º Congresso, no ano passado. "Outra campanha importante que o PT lançou e na qual avançará em 2012 é (...) pela democratização dos meios de comunicação de massa, que aperfeiçoa nosso processo democrático ao dar voz a todos os setores da sociedade", afirma o item 15 do documento preliminar.

'Bacia das almas'. Para tentar neutralizar o discurso tucano de que o PT adotou a privatização, o partido orientou os militantes a destacarem supostas diferenças entre as concessões de aeroportos no governo Dilma Rousseff e a venda de estatais na gestão Fernando Henrique (1995-2002).

"Antes, as empresas públicas, às dezenas, como a Vale do Rio Doce, a Companhia Siderúrgica Nacional, a Embraer, as telefônicas, as empresas de energia elétrica (...) eram vendidas dentro da concepção de Estado mínimo, e os recursos, usados para pagamento de dívidas", diz trecho da resolução. "Antes, as empresas eram torradas na bacia das almas a preços de compadre. Agora, os ganhos para o poder público são enormes e aplicados no desenvolvimento do País."

Na prática, o PT usa um jogo de palavras para justificar a mudança de discurso ao longo de sua trajetória, que hoje completa 32 anos. A primeira versão do texto - que recebeu 15 emendas e passará pelo crivo de comissão executiva - insiste em que tudo é diferente entre petistas e tucanos. Diz ainda que, para preservar a economia de "turbulências", o PT respeitou os contratos que "eles" assinaram.

Em vídeo divulgado pela internet, na quarta-feira, Fernando Henrique afirmou que as privatizações não devem ser encaradas como questão ideológica.

"A privatização não é uma questão ideológica. É uma questão que depende das circunstâncias, como aumentar a capacidade de gerenciar, aumentar a oferta de serviço", comentou ele.

Corrupção. A queda de nove ministros, sete dos quais envolvidos em denúncias de corrupção, é citada de forma indireta no texto petista. "Não vingou a campanha de setores da oposição que buscavam desestabilizar o governo através de seguidas denúncias de corrupção em ministérios."

O documento menciona 2012 como "o ano da Comissão da Verdade" e enfatiza que o PT estará empenhado no "resgate de nossa memória da luta pela democracia durante o período da ditadura militar".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.