'PT precisa esclarecer o que houve no mensalão'

Frei Betto diz que partido deveria se manifestar ou na defesa de condenados ou apontando erros; ele quer votar em Lula de novo

Entrevista com

LUCIANA NUNES LEAL / RIO, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2012 | 02h06

Amigo de Luiz Inácio Lula da Silva e assessor especial da Presidência da República no primeiro mandato do petista no Palácio do Planalto, o escritor Frei Betto não esconde o desejo de votar de novo no ex-presidente, mas cobra uma posição mais clara do PT em relação às denúncias que envolvem o partido.

Além do mensalão, cujo julgamento foi concluído pelo Supremo Tribunal Federal na semana passada, a Operação Porto Seguro, deflagrada pela Polícia Federal no mês passado, teve entre os alvos a ex-chefe do gabinete da Presidência da República em São Paulo, Rosemary Noronha, amiga íntima de Lula.

O frade dominicano se diz "penalizado" pelas cenas do julgamento do mensalão no Supremo, mas afirma que a direção petista deve esclarecer se erros foram cometidos e o que foi feito para corrigi-los.

Coordenador de Mobilização Social do Programa Fome Zero entre 2003 e 2004, o dominicano deixou o cargo por não concordar com a política econômica adotada pelo governo Lula e para voltar a se dedicar à literatura. Oito anos depois, Frei Betto critica o PT por "não ter um projeto Brasil", mas, sim, "um projeto de poder".

No último mês, Lula sofreu desgastes não só pela proximidade com Rose, denunciada pelo envolvimento com um esquema de venda de pareceres técnicos, como pelas acusações do empresário Marcos Valério Fernandes de Souza, condenado pelo Supremo a mais de 40 anos de prisão por atuar como operador do mensalão.

Em 24 de setembro, em depoimento à Procuradoria-Geral da República cujo teor foi revelado no início do mês pelo Estado, Valério disse que parte do dinheiro do esquema pagou despesas pessoais do ex-presidente e ele deu o "ok" para empréstimos do mensalão. Dois dias depois, em uma palestra em Paris, Lula sugeriu que pode voltar a ser candidato.

Como o sr. acompanhou o

julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal?

Acompanhei muito penalizado porque, embora eu nunca tenha sido militante de nenhum partido político, nem do PT, através da minha atividade pastoral eu ajudei a construir esse partido. Gostaria que o partido viesse a público esclarecer se houve ou não houve culpa, se houve ou não houve ações que faltaram à ética. Acho que está precisando de uma palavra do partido a respeito de todos esses fatos que têm sido manchetes na nossa imprensa.

As sucessivas críticas de dirigentes do PT às condenações e ao julgamento não são suficientes para ter uma ideia do que pensa o partido?

Não vou avaliar o partido, digo minha opinião. As denúncias são graves e é preciso que o partido se manifeste, ou na defesa (dos acusados) ou dizendo se realmente houve falhas e que medidas serão tomadas.

O julgamento do mensalão é um marco no combate à corrupção no País?

Só o tempo dirá. O resto é apenas achismo.

Como vê a investigação da ex-chefe do escritório da Presidência em São Paulo Rosemary Noronha, ligada ao ex-presidente Lula e suspeita de corrupção e tráfico de influência?

Sou amigo pessoal do presidente Lula e prefiro não comentar.

Qual é sua avaliação sobre o governo da presidente Dilma Rousseff?

Nota dez. Só espero que ela seja mais sensível aos movimentos sociais e, principalmente, responda a uma demanda de décadas da realidade brasileira de realizar a reforma agrária. Alianças são necessárias, mas lamentavelmente têm sido feitas em cima de cargos, e não de programas. Em 2014, darei meu voto a Dilma ou a Lula. Espero que Lula volte.

O sr. acredita numa nova candidatura de Lula?

Ainda que a Dilma seja a próxima presidente, em 2018 tranquilamente Lula pode voltar, tem idade para isso. Em qualquer um dos dois eu votarei, farei campanha, terão todo o meu apoio.

O que acha do projeto de renovação do PSDB, pregado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso?

O problema é que não tem quadros. Aécio (Neves, senador tucano) é conhecido no meu Estado, Minas Gerais. É muito conhecido, prestigiado, mas não é um nome nacional. Não pode competir com Dilma, com Lula. Os dois são imbatíveis.

O que acha que falta ao PT?

O PT tem muitos militantes aguerridos, comprometidos com os movimentos populares, mas como direção partidária não vejo um projeto de Brasil no PT, vejo um projeto de poder. O PT precisa retomar sua inspiração originária, de "qual é o Brasil que nós queremos?". Um Brasil de reforma agrária, com reforma tributária, com menos desigualdades. Essa dimensão do PT infelizmente está sumida, a ponto de fazer alianças tão amplas que acaba descaracterizando o partido. Todos os partidos têm suas contradições. Por isso hoje eu voto mais em candidatos do que em partidos.

Chegar ao poder fez mal ao PT?

Ao contrário. Chegar ao poder fez muito bem, sobretudo ao povo brasileiro. Os governos Lula e Dilma são os melhores da nossa história republicana. Os aeroportos estão cheios de gente classe C e D, as pessoas estão comprando. No Nordeste não tem mais jegue, agora tudo é moto. Mas ainda há outras medidas que precisam ser tomadas, a questão da saúde é grave, a educação. Alimentação, saúde e educação são os três direitos fundamentais do ser humano, pela ordem, e ainda exigem medidas muito enérgicas.

O sr. voltaria ao governo, se fosse convidado?

Sou um feliz "ING": indivíduo não governamental.

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