PT e PSDB ajudaram Russomanno, diz analista

Cientista político aponta erros nas campanhas petista e tucana que impulsionaram candidato do PRB

Agência Estado

25 de setembro de 2012 | 17h01

A candidatura de Celso Russomanno (PRB) desafia cientistas políticos, jornalistas e estrategistas de campanha a compreenderem as razões de seu sucesso. O perfil midiático de defensor do consumidor é um importante componente para tal explicação. Outra explicação é o eleitorado conservador, que votou em Jânio Quadros, apoiou Paulo Maluf, contribuiu com a eleição de Marta Suplicy e migrou para Serra-Kassab, que estava órfão e acabou abraçando essa candidatura. Sem desconsiderar essas hipóteses, há uma outra razão: a prevalência de projetos de poder de líderes partidários, em detrimento da ausência dos partidos no processo de construção das candidaturas Fernando Haddad (PT) e José Serra (PSDB), acabou abrindo espaço para a consolidação do candidato do PRB. A análise é de Marco Antonio Carvalho Teixeira, cientista político, professor e vice-coordenador do curso de administração pública da FGV

Segundo o cientista político, a escolha de Haddad, no PT, deveu-se ao fato de o partido ter vivido dois problemas para definir seu candidato: lideranças que poderiam pleitear a vaga haviam sido abatidas pelo mensalão e Marta Suplicy, que pleiteava a indicação, era rejeitada por 1/3 do eleitorado paulistano, o que a tornava praticamente inviável no segundo turno. "O sucesso de Dilma em 2010 fez Lula estimular Haddad, por conta própria, apostando na ideia do novo. Todavia, a ação de Lula acabou violando a trajetória democrática do PT na definição de candidaturas ao Executivo: pré-candidatos foram sendo desconstruídos para passar a impressão de consenso em torno de Haddad, que foi lançado com ressalvas públicas de Marta Suplicy", destaca.

Carvalho Teixeira lembra também que Lula esteve à frente do abraço a Maluf, fato que custou a presença de Erundina como vice de Haddad. "Isso tornou a candidatura petista incoerente com o discurso do novo e assustou aqueles - que não são poucos - que buscam compatibilizar coerência política com pragmatismo eleitoral", reitera, complementando que a entrada tardia da senadora Marta Suplicy na campanha, quase que de maneira simultânea à sua nomeação para o Ministério da Cultura, deixou também a impressão de que o governo federal barganhou tal apoio e adotou uma velha prática que novamente se chocou com a promessa do novo.

Serra. A construção da candidatura Serra, na avaliação do cientista político, também foi cercada de erros e pautada por projetos de poder à margem do partido: "Convém lembrar que desde 2002 ele vem concorrendo a todos os cargos para o Executivo: duas vezes à presidência da República, uma à Prefeitura e outra como governador, além de agora pleitear novamente o retorno ao cargo de prefeito." Carvalho Teixeira destaca que o fato de Serra, de início, ter afirmado que não seria candidato, acabou estimulando o surgimento de quatro pré-candidaturas no PSDB.

Poucos dias antes de se efetivar a escolha, e com o apoio de Alckmin, Serra anunciou a sua pré-candidatura. Para Carvalho Teixeira, isso implicou em conflitos com outros pré-candidatos e filiados ao partido, e dificultou o surgimento de novas lideranças entre os tucanos. "O resultado foi que Serra venceu com pouco mais de 50% dos votos num processo que reforçou a existência de uma oligarquia política dentro do PSDB. Um outro erro foi fortalecer a candidatura Russomanno ao se eximir de qualquer esforço para impedir a aliança do PTB com o PRB", destaca.

O cientista político argumenta também que a aposta era que Serra enfrentaria Haddad no segundo turno. "Entretanto, com o inesperado padrão malufista de rejeição (acima de 40%), o tucano acabou ajudando, de forma inesperada, a construir um adversário cujas condições de vitória, nesse momento, são bem superiores à sua." Por isso, ele acredita que tanto PT quanto PSDB cometeram erros básicos na construção das candidaturas, ao deixar o processo ser conduzido quase que exclusivamente por suas poucas lideranças, sem que houvesse debate partidário. "E isso contribuiu para ampliar o vazio decorrente da ausência de projetos coletivos que acaba fortalecendo o vácuo em que lideranças personalistas como Celso Russomanno se apresentam".

Na avaliação de Carvalho Teixeira, com este cenário, quem cometer menos erros, daqui pra frente, deverá ser o adversário de Russomanno num eventual segundo turno dessas eleições. "A grande questão para Serra e Haddad é saber se o derrotado estará no palanque do vencedor. O tom de agressividade entre PSDB e PT indica que não. Assim, as circunstâncias parecem conspirar a favor de Russomanno uma vez que, de olho em 2014, o PT quer destruir o PSDB e os tucanos tratam de demonizar o PT."

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