PT cobrava 'pedágio' de agências, diz Valério

Empresário afirmou no depoimento prestado em 24 de setembro que 2% dos contratos com o Banco do Brasil ia para caixa do partido

FELIPE RECONDO, ALANA RIZZO, FAUSTO MACEDO, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2012 | 02h08

O empresário Marcos Valério Fernandes de Souza afirmou no depoimento prestado em 24 de setembro à Procuradoria-Geral da República que dirigentes do Banco do Brasil estipularam, a partir de 2003, uma espécie de pedágio às agências de publicidade que prestavam serviços para a instituição financeira pública: 2% de todos os contratos eram enviados para o caixa do PT, acusou o homem apontado como o operador do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal.

O Estado revelou ontem que, neste mesmo depoimento, dado à subprocuradora da República Cláudia Sampaio e à procuradora da República Raquel Branquinho, Valério afirmou que dinheiro do esquema que pagou parlamentares do Congresso entre 2003 e 2005 também serviram para pagar "despesas pessoais" do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O empresário também afirmou, entre uma série de novas acusações, que Lula deu "ok" aos empréstimos fraudulentos que viriam a irrigar o mensalão.

Segundo Valério disse no depoimento, o suposto esquema de desvio de dinheiro público que teria de ir para a publicidade foi criado por Henrique Pizzolato, ex-diretor do Banco do Brasil - também condenado no julgamento do mensalão -, e Ivan Guimarães, ex-presidente do Banco Popular do Brasil, No período conhecido como de operação plena do mensalão, de 2003 a 2004, o Banco do Brasil pagou, segundo dados CPI dos Correios, pelo menos R$ 434 milhões a agências de publicidade. Ao longo desse período de dois anos, a DNA, empresa de Valério que detinha um dos contratos, aumentou sua participação nos acordos enquanto o bolo das demais agência declinava.

Ainda no primeiro ano de governo do ex-presidente Lula, a DNA conseguiu renovar o contrato com o Banco do Brasil. O valor estimado dos gastos de publicidade era de R$ 152,8 milhões, segundo informações do Ministério Público Federal. A renovação teria rendido ao ex-diretor de Marketing Henrique Pizzolato, réu no processo do mensalão, mais de R$ 300 mil de contrapartida.

Além da DNA, a licitação 01/2003 originou contratos com a Ogilvy Brasil Comunicação Ltda e a D+Brasil Comunicação Total. Entre março de 2000 e junho de 2005, a agência de Valério respondia por 39,77% da verba publicitária do banco. Os dados são da CPI dos Correios.

Os contratos firmados em setembro de 2003 entre o Banco do Brasil e as três agências alcançavam todo o conglomerado do Banco do Brasil, incluindo empresas ou entidades que fossem criadas e a Fundação Banco do Brasil. Comandado por Ivan Guimarães, o Banco Popular do Brasil funcionava como uma subsidiária integral, cuja autorização de funcionamento foi publicada em dezembro de 2003. O ex-presidente também esteve envolvido no episódio da compra do apartamento da ex-mulher de José Dirceu por Rogério Tolentino, sócio de Marcos Valério.

Segundo o MPF, os desvios no Banco do Brasil foram praticados por meio do chamados bônus de volume, que consistia na violação de cláusulas de contrato que permitiam a DNA se apropriar de valores que teriam que ser devolvidos. Pizzolato teria autorizado a prática em troca de propina. O que o depoimento de Marcos Valério revela agora é que a negociação teria incluído outra cláusula: o repasse para o PT.

Além disso, os recursos de publicidade fornecidos pela Visanet do Banco do Brasil teriam sido desviados por meio de antecipações autorizadas por Pizzolato em benefício da empresa de Marcos Valério. Na denúncia, o MPF afirma que o dinheiro foi repassado sem que o serviço tivesse sido prestado e sem qualquer garantia de contrapartida. O contrato da DNA com o Banco do Brasil sequer atingia as verbas de publicidade da Visanet.

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