PT busca movimentos sociais para frear expansão do PMDB sob Dilma

O PT intensificou nos últimos meses seus contatos com os movimentos sociais na tentativa de aglutinar forças além do campo institucional para levar adiante projetos estratégicos e, sobretudo, confrontar o PMDB, o seu sócio de maior peso no condomínio do governo da presidente Dilma Rousseff.

ROLDÃO ARRUDA, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2012 | 03h02

Com sindicatos, movimentos sociais e manifestações populares, os petistas acreditam que poderão desequilibrar a atual correlação de forças entre os dois partidos, inclusive nas eleições municipais deste ano, território onde o PMDB historicamente apresenta bons resultados: em 2008, os peemedebistas elegeram 1.203 prefeitos contra 557 prefeitos petistas .

O outro objetivo estratégico da ação é utilizar a pressão das entidades organizadas para fazer avançar no Legislativo e no Executivo projetos e discussões sobre temas em que o PMDB é frontalmente contra o PT, como a redução da jornada semanal de trabalho, por exemplo.

Em conversa com o Estado (leia entrevista nesta página), o presidente do PT, Rui Falcão, diz que o partido nunca teve intenção de "instrumentalizar" os movimentos, mas admitiu que a legenda aposta na mobilização popular, a exemplo do que ocorreu no passado com a campanha pelas eleições diretas, para levar adiante seus projetos de mudança, especialmente a reforma política.

O desafio é sintonizar projeto petista com os dos sindicatos e movimentos. Em alguns setores da direção nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT), com a qual se reuniu em dezembro, Falcão deixou nítida impressão de que, embora apoie as principais reivindicações da entidade, evita defendê-las com vigor para não provocar demais os líderes do PMDB.

O caso mais evidente seria o da proposta de redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, sem cortes nos salários: agrada ao ideário petista, mas, por não ser bem aceita pelos peemedebistas, perde força e brilho no debate político. O mesmo ocorreria com a questão do fim do fator previdenciário, outra bandeira da CUT.

No Movimento dos Sem Terra (MST), cujos dirigentes devem se encontrar pela segunda vez com Falcão ainda neste mês, a impressão é a mesma. Para eles, o exemplo mais à mão é o da revisão do índice de produtividade rural. A exemplo do que ocorreu no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, a presidente Dilma não pretende tocar nesse assunto em seu governo, evitando contrariar o PMDB - partido que abriga alguns dos mais combativos porta-vozes da poderosa bancada ruralista no Congresso.

Confronto. A constatação do permanente confronto entre as duas principais forças da coalizão que sustentam o governo não constitui novidade. O cientista político André Singer, que foi porta-voz da Presidência da República no governo Lula, já observou que o PMDB se instalou no interior da coalizão como uma espécie de mediador do diálogo com o capital, mais explicitamente com os empresários. Isso teria enfraquecido de imediato propostas como a redução da jornada de trabalho, o imposto sobre grandes fortunas e outras.

Por não serem propostas consensuais na base do governo, elas não poderiam ser levadas adiante. Isso só ocorreria, segundo Singer, se houvesse uma mudança na correlação de forças.

É isso que o PT parece buscar ao se aproximar dos movimentos sociais e dos sindicatos. A ideia de mobilizar forças além dos limites do Congresso para levar adiante reformas programáticas do PT tem sido enfaticamente defendida por José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil e um dos ideólogos do partido. Ele diz que a reforma política defendida pelo PT só irá adiante se houver mobilizações de massa.

"Onde estão as entidades estudantis, as instituições organizadas da sociedade, os movimentos populares representativos da cidadania, que não estão nas ruas defendendo a reforma política?", perguntou, durante um seminário no ano passado.

São essas entidades e movimentos que o presidente do PT procura. E não é só ele. O atual líder da bancada petista na Câmara, Paulo Teixeira, também alarga os canais de conversação em um ritmo que há tempos não se via no partido.

"A última vez que vi uma preocupação tão forte com os movimentos foi quando o Tarso Genro presidia o partido", observa João Paulo Rodrigues, porta-voz da direção nacional do MST, referindo-se exatamente ao período da crise do mensalão. "Com o antigo líder do partido no Congresso, o Cândido Vacarezza, não conseguíamos nem agendar uma reunião. Agora somos procurados pelo Paulo Teixeira."

Na sede da CUT, em São Paulo, o secretário executivo da entidade, Quintino Severo, também confirma a mudança. "Desde a posse do Rui Falcão, o PT está preocupado em melhorar a relação com a base social. Isso é bom, mas não resolve o problema principal, que é a dificuldade do partido enfrentar o governo."

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