PSDB tenta 'descobrir a melhor vanguarda'

Para FHC, o partido, com 25 anos, tem de entender que as ruas foram tomadas pelo povo não operário e classe média; 'O PSDB os representa'

JULIA DUAILIBI, UBIRATAN BRASIL, GABRIEL MANZANO, O Estado de S.Paulo

23 Junho 2013 | 02h09

Ao completar 25 anos, o PSDB, principal partido de oposição, tenta aproveitar o momento de desgate do governo e encontrar uma bandeira para demandas levantadas nas recentes manifestações pelo País. Ainda perdidos sobre o rumo a seguir, os tucanos dizem querer evitar o oportunismo político, mas criticam a gestão Dilma Rousseff e ensaiam discurso com termos como "gestão" e "eficiência" dos serviços públicos, em resposta às cobranças surgidas nos protestos.

"Cabe ao PSDB entender que há coisa nova hoje. Quem está na rua hoje não são os sindicatos ou os trabalhadores, mas um misto de povo não operário e classe média. Basicamente, são eles que o partido representa", disse ao Estado o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que em março declarou que o PSDB precisava de um "banho de povo".

Fora do poder desde 2002 e com três derrotas para o PT na tentativa de voltar ao Planalto, o PSDB se prepara para lançar o senador Aécio Neves (MG) candidato a presidente. Em busca de uma plataforma, iniciou o resgate de bandeiras do partido da Era FHC, entre elas o controle da inflação e as privatizações.

As manifestações dos últimos dias, porém, levaram líderes do PSDB a buscar um ajuste no discurso e a criar uma narrativa palatável para a população. "O PSDB tem de ser liberal do ponto de vista do comportamento, encampando teses novas, e social do ponto de vista do que o Estado tem de fazer, seguindo a visão de um Estado social não corporativo. O desafio é vestir essa roupa e propagar essa ideia. Um partido, ou mesmo seu líder, não tem de seguir a tradição, mas descobrir qual é a melhor vanguarda", disse FHC.

A conjuntura política tornou mais urgente a necessidade de encontrar um discurso, dizem os tucanos, e de fortalecer a legenda como opção em 2014, revertendo o distanciamento "das ruas". Segundo dados do Ibope, em dezembro de 1998, na Era FHC, a legenda vivenciou o auge de popularidade, com 10% da preferência dos eleitores. Esse porcentual caiu para a metade em 2012.

"Os partidos não estão mais em sintonia (com as demandas da sociedade). Temos de criar uma agenda para frente", disse o deputado Sérgio Guerra (PE). Para os tucanos, os índices de abstenção em 2012 já davam sinais da insatisfação da população. O 2.º turno na capital paulista teve a maior abstenção desde 1992:19,99%.

"Estamos atentos aos problemas vividos pelo Brasil real, muito diferente do que nos é vendido pela propaganda do governo. Queremos apresentar ao País um modelo de gestão comprometido com a melhoria da qualidade de vida dos brasileiros", disse Aécio ao Estado ao adotar o discurso da gestão.

"Do Plano Real para cá, o Brasil prosperou muito, mas o Estado não correspondeu em melhorias de serviço para suprir demandas da sociedade", disse o presidente do PSDB-SP, Duarte Nogueira. O governador de Minas, Antonio Anastasia, também destacou a questão. "Importante reconhecer que há uma série de deficiências e precariedades no funcionamento e na prestação de serviços públicos", disse o tucano ao falar do "momento em que o País vive uma crise de legitimidade das instituições".

Reformas. Para o ex-governador Alberto Goldman, é necessária a agenda de reformas. "O PSDB deve colocar o seu objetivo - consolidar e radicalizar a democracia no País - como sua tarefa principal, através de profundas reformas." Para o governador do Paraná, Beto Richa, o partido precisa aumentar a interlocução com os movimentos sociais e "abrir canais para discussão de assuntos aparentemente embaraçosos junto a entidades, sindicatos, universidades, escolas."

O ex-deputado Arnaldo Madeira admite a dificuldade de atender aos anseios das ruas. "Não se tem formulação sobre o que se quer nem lideranças que expressem esse descontentamento. Sobra para todos."

Mais conteúdo sobre:
protestos

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.