Prova material

De modo geral, as análises sobre o destino da CPI do Cachoeira depois da cassação de Demóstenes Torres convergiram para a conclusão de que um mandato de senador saciaria os apetites punitivos e, com isso, a tendência seria o esvaziamento dos trabalhos da comissão.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2012 | 03h04

É uma maneira de ver as coisas. Um tanto apressada por se basear na opinião anônima de uma maioria interessada em mudar de assunto o quanto antes, desconsiderar o papel do público e, por isso mesmo, talvez equivocada.

A lógica diz justamente o contrário: cassado Demóstenes, comprovado ficou que na interpretação do Senado há realmente infiltração do crime organizado no ambiente político, o que por si já é motivo suficiente não para enfraquecer, mas para fortalecer o objetivo da CPI de investigar as relações do chamado esquema Cachoeira com agentes públicos e privados.

Aliás, se não fosse a repercussão que a comissão de inquérito deu ao caso, o desfecho da votação da semana passada no Senado poderia ter sido outro.

A realidade também informa que será preciso mais que um sofisma - aquele segundo o qual a retirada de Demóstenes de cena levaria a CPI a perder o sentido - para dar o dito pelo não dito.

A dificuldade para se levar a termo a tese do esvaziamento é que a comissão não é senhora dos fatos. Há o inquérito da Polícia Federal cujo conteúdo todos os dias fornece uma revelação que renova a necessidade de o Congresso levar adiante o que começou.

A mais recente envolvendo o governador de Goiás, Marconi Perillo, pode ser verdadeira ou não, mas precisa ser esclarecida. Afinal, a Polícia Federal está dizendo que um chefe de executivo estadual vendeu um imóvel a um acusado de comandar organização criminosa que pagou a ele com dinheiro de uma empreiteira em troca da liberação de pagamentos referentes a contratos com o governo.

Em português claro, acusa-se Perillo de ter recebido propina da Construtora Delta. Empresa que depositava dinheiro em empresas fantasmas para, segundo as suspeitas, irrigar dutos de corrupção e caixa dois de campanhas eleitorais.

Não bastasse, um prefeito (de Palmas) foi filmado combinando troca de favores com Carlos Cachoeira, outro governador (do Distrito Federal) mantinha em seu gabinete gente de relações estreitas tanto com o bicheiro quanto com a empreiteira e resta ainda esclarecer até que ponto a amizade do governador do Rio de Janeiro com o dono da Delta respeitou ou não a fronteira entre o público e o privado.

Tudo isso ganhou destaque por causa da CPI. Arquitetada com objetivos baixos, acabou tomando o rumo do inesperado, prestando-se a propósitos mais altos.

No ponto em que se chegou fica impossível promover um recuo à estaca zero. Simplesmente porque essa decisão não está nas mãos de nenhum partido, não depende da vontade dos senadores e deputados, não é um brinquedo a ser posto de lado por decreto parlamentar.

Querendo ou não, a única opção de suas excelências é prosseguir. Até porque já está patente que as informações originadas na Polícia Federal não deixarão que seja diferente.

Empurra. O publicitário Duda Mendonça acusa o colega Marcos Valério, que chama atenção para a responsabilidade dos "protagonistas políticos", entre os quais José Dirceu, que, por sua vez, joga culpa no ex-tesoureiro petista Delúbio Soares.

Eis o que resumidamente se conhece até agora das alegações das defesas desses três réus do processo do mensalão, indicando que juridicamente faz-se insustentável a versão disseminada no campo político de negar os fatos para transformar um escândalo de corrupção em conspiração golpista contra Lula e o PT.

Do exposto até agora pelos advogados, portanto, há admissão de que crimes houve, restando apenas estabelecer quem os cometeu. A partir desse pressuposto é que a desunião entre os acusados pode fazer prevalecer a força dos relatos contidos nos autos.

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