Protestos obrigam PSOL a 'discutir a relação' com as ruas

Partido nascido de dissidência petista prepara congresso em que debaterá como responder a anseios demonstrados nas manifestações

LUCIANA NUNES LEAL / RIO, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2013 | 02h11

Fundado em 2004 por um grupo de petistas insatisfeitos com os rumos do governo Luiz Inácio Lula da Silva, o PSOL não escapou do impacto dos protestos que tomaram conta do País em junho. Diante da rejeição de grande parte dos manifestantes a todos os partidos políticos, os militantes da sigla recolheram as bandeiras, mas não saíram das ruas. No Rio, os políticos com mandato participam discretamente das mobilizações nas ruas e os jovens do partido passaram a ser os protagonistas, mas na condição de integrantes de movimentos sociais e estudantis.

Em paralelo, o partido se organiza para o 4.º Congresso Nacional, em novembro, e nove teses estão em discussão. Todas avaliam o impacto das mobilizações no País, no cenário político e no partido. "Os gastos faraônicos em estádios, os investimentos públicos com saúde e educação são lutas em que a gente estava há muito tempo, mas não repercutiam como agora", avalia Chico Alencar (RJ), um dos três deputados federais da sigla. "Tivemos a sabedoria de não querer embandeirar os movimentos. A gente compreendeu que a rejeição política não livrava ninguém."

No partido, segundo o deputado, há três formas de encarar os protestos. "Há os que acham que o gigante acordou e vai mudar a face do País, outros acreditam que vai dormir de novo, porque os protestos são inorgânicos e extremamente diversificados. E há os que dizem que o gigante se mexeu, voltou a dormir, mas um sono leve, com possibilidade de acordar a qualquer momento", afirma Alencar, que se inclui no terceiro grupo. "Alguns mitos foram derrubados, como o de que a classe C vai ao paraíso."

No alvo. Algumas teses apresentadas para o congresso do PSOL defendem uma radicalização mais à esquerda. Quatro atacam diretamente Randolfe Rodrigues (AP), único senador da sigla, por ter se reunido com a presidente Dilma Rousseff, contrariando decisão da Executiva nacional, após a onda de protestos. Randolfe também é criticado por aceitar, em Macapá, o apoio do DEM a Clécio Luís, um dos dois prefeitos do PSOL - o outro é de Itaocara (RJ).

"O PSOL já está à esquerda. Mais à esquerda é o precipício", ironiza Randolfe. "A aliança política no campo democrático e popular não deve ser excludente. Quanto ao encontro com a presidente, sou senador, seria um equívoco enorme perder a oportunidade de falar da pauta de mobilização das ruas."

Randolfe critica a tese difundida por "grande parte do petismo, que tenta rotular as mobilizações como de direita, beirando o fascismo". "O que acontece no Rio, por exemplo, é fantástico, progressista. A cobrança para encontrar o pedreiro Amarildo, desaparecido na Rocinha, pressionou os governantes, a opinião pública e a mídia."

Com as manifestações pela saída do governador Sérgio Cabral (PMDB) e contra a CPI dos Ônibus na Câmara Municipal, o Rio tem concentrado o maior número de protestos das últimas semanas. Autor do pedido de investigação, Eliomar Coelho, um dos quatro vereadores do PSOL na cidade, recusou-se a participar dos trabalhos depois que a presidência e a relatoria da comissão foram entregues a aliados do prefeito Eduardo Paes (PMDB). "Não poderia participar de uma CPI sem legitimidade", diz. Na Assembleia Legislativa, cabe ao deputado Marcelo Freixo a oposição mais contundente a Cabral.

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