Procuradores dizem à CPI ter sofrido ameaças

Responsáveis pelas operações Vegas e Monte Carlo defendem mais apuração sobre relação entre Delta e Cachoeira

EUGÊNIA LOPES / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2012 | 03h07

Responsáveis no Ministério Público pelas Operações Vegas e Monte Carlo, os procuradores Daniel de Resende Salgado e Léa Batista de Oliveira defenderam ontem a investigação das relações do esquema do contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlos Cachoeira, com a Delta Construções.

Em depoimento ontem à CPI do Cachoeira, ambos relataram ameaças e solicitaram o compartilhamento da quebra de sigilos bancário e fiscal recebidos pela CPI de toda a movimentação de Cachoeira e de empresas fantasmas para que a Justiça mantenha o sequestro de bens do contraventor, estimados em R$ 167 milhões.

"Temos a possibilidade de perder o sequestro desses bens", lamentou Salgado, que foi responsável pela Vegas, entre 2008 e 2009. Segundo ambos, o "braço financeiro" da quadrilha não foi investigado pelo MP porque, com o vazamento de informações, a Monte Carlo foi deflagrada em 29 de fevereiro, com a prisão de Cachoeira, antes do término das averiguações sobre as relações do esquema com empresários.

'Proximidade'. Foi detectado apenas uma "proximidade muito grande" entre Cachoeira e Cláudio Abreu, diretor regional da Delta Centro-Oeste. A sede da empresa em Goiânia era usada por Cachoeira para encontros de negócios. Também não foram levadas adiante as investigações sobre operações de "dólar a cabo" do grupo de Cachoeira no exterior - Uruguai, Reino Unido e Curaçau.

"O próximo desafio do MP é identificar a questão patrimonial e as possíveis fraudes à licitação e o braço financeiro", disse Léa, que comandou as investigações da Monte Carlo no MP. "Não conseguimos fazer qualquer tipo de investigação nesse viés empresarial", disse Salgado. Ambos informaram que as apurações ficaram centradas no esquema de jogo ilegal comandado por Cachoeira.

Diante da defesa dos procuradores para que as investigações avançassem sobre o braço empresarial do grupo, integrantes da CPI voltaram a defender a quebra do sigilo de empresas laranjas montadas por Cachoeira para receber recursos da Delta. "A CPI apontou a existência de uma holding da corrupção capitaneada pela Delta", disse o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP). Levantamento do PSDB aponta que a empreiteira repassou R$ 413,5 milhões para 18 empresas fantasmas, em dez anos e apenas seis tiveram o sigilo quebrado pela CPI. "Estou estudando para ver se é o caso de quebrar os outros sigilos", disse o relator Odair Cunha (PT-MG).

No depoimento de cerca de quatro horas à CPI, a procuradora Léa Batista enfatizou que a organização criminosa comandada por Cachoeira tem características semelhantes à máfia italiana. Ela argumentou que um dos aspectos mais fortes é a lei do silêncio imposta a seus integrantes. A procuradora observou ainda que sofreu ameaças do grupo, que mandou e-mails para ela e teria até tentado entrar em sua casa, numa madrugada. Daniel Salgado observou que, pela atual legislação, Cachoeira deverá ficar preso apenas 15 anos, mesmo que seja condenado à pena máxima de 30 anos.

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