'Privacidade não justifica censura prévia'

Na abertura da SIP, debatedores defendem critérios éticos, e não proibição antecipada

ROLDÃO ARRUDA , GABRIEL MANZANO, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2012 | 03h08

A Sociedade Interamericana de Imprensa deu início ontem à sua 68.ª Assembleia-Geral, em São Paulo, com um painel sobre liberdade de imprensa e direito à privacidade. Os debatedores destacaram que, ao mesmo tempo que os jornalistas devem se guiar por critérios éticos, o direito à privacidade não pode justificar a censura prévia.

"Nas convenções internacionais que tratam dos princípios do respeito à privacidade e liberdade de imprensa, assim como na Constituição do Brasil, não se tem nenhuma regra que mande alguma publicação ser proibida de antemão", disse a advogada Taís Gasparian, do jornal Folha de S. Paulo. "Essa é a questão mais importante quando se fala de liberdade de imprensa e privacidade." Para a advogada, os conflitos que surgirem devem ser sempre resolvidos posteriormente à publicação.

A escolha do tema foi motivada pela preocupação da mídia com o crescente uso de meios eletrônicos que facilitam o acesso - em alguns casos, de forma ilegal - à intimidade de pessoas públicas, como destacou a colunista Patrícia Kogut, do jornal O Globo, mediadora do painel

"Nesses tempos em que todo mundo tem um celular que filma e fotografa, invadir a privacidade ficou muito fácil. Por causa disso, as publicações sérias precisam ter critérios rígidos para que isso não aconteça", afirmou a colunista.

Para a americana Ellyn Angelotti, pesquisadora do Pointer Institute, especializada no tema, a influência dos meios eletrônicos criou um novo tipo de pressão sobre os editores de jornais. "Mesmo que decidam não publicar uma informação, uma foto, um filme, nada impede que ela circule", afirmou. Nesse novo ciclo, segundo a especialista, fica reforçada a missão do jornalista de buscar a verdade e verificar a veracidade das informações que circulam em velocidade cada vez mais rápida. "Não se pode publicar uma foto de um político ou de uma celebridade sem saber antes se foi manipulada."

Critérios. Edgard Martollo, da revista Caras, dedicada a reportagens sobre celebridades, falou que uma das dificuldades para tratar do assunto é que as concepções sobre invasão de privacidade variam de uma região para outra e entre nações. "Em cada país e em cada cultura encontramos o que um aprova e o que outro não aprova."

A atriz Regina Duarte destacou que a questão da liberdade de imprensa não pode estar sujeita a nenhum tipo de condicionalidade. "Não existe um ser quase livre. Existe ser ou não ser livre. Se aceitarmos uma única forma de restrição às liberdades, estaremos abrindo uma brecha que vai dar num atalho tortuoso e escuro, por onde a censura sabe muito bem caminhar", afirmou.

Depois de afirmar que, ao longo de sua carreira, conseguiu manter boas relações com a imprensa, a atriz disse se preocupar "quando a imprensa se torna ideológica demais, quando se sente com o direito de julgar meu pensamento".

O encontro da SIP reúne cerca de 450 jornalistas e donos de empresas de comunicação de mais de 30 países e prossegue até terça-feira. Um de seus principais temas são as ameaças à liberdade de imprensa no continente.

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