Prisão dos 'irmãos que deram certo' abala cidade baiana

Alvos da Operação Porto Seguro da Policia Federal, Paulo, Marcelo e Rubens Vieira eram 'prodígios' da pequena Condeúba, na divisa com Minas Gerais

TIAGO DÉCIMO , ENVIADO ESPECIAL A CONDEÚBA, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2012 | 02h09

No início do ano, o ex-diretor da Agência Nacional de Águas Paulo Rodrigues Vieira, ou Paulo de Arlindão, como é conhecido em sua cidade natal, Condeúba, no sul da Bahia, deu uma palestra para alunos do 3.º ano do ensino médio do Colégio Estadual - onde havia cursado o então segundo grau, no início da década de 1990.

A importância dos estudos para o desenvolvimento profissional foi o tema da fala de Paulo Vieira. "Ele conseguiu fazer com que todos ficassem quietos, prestando atenção, o que é bem difícil por aqui", lembra a diretora da escola, Suely Tolentino Spínola.

Paulo e seus irmãos, o ex-diretor da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) Rubens Carlos Vieira e o empresário Marcelo Rodrigues Vieira, eram exemplos para estudantes e professores da instituição. Filhos de trabalhadores rurais simples e dedicados, buscaram nos estudos um meio de progredir na vida. "Certa vez, disse a 'seu Arlindo' (o pai dos irmãos Vieira) para não deixar que eles abandonassem os livros, porque eles eram muito inteligentes", lembra o antigo professor de português e literatura, Agnério Evangelista de Souza, de 66 anos. "Ele ficou orgulhoso, do jeito dele. Sorriu e disse que fazia o que podia."

Paulo e Rubens se destacavam dos demais, lembra Suely, também ex-professora do trio. O primeiro era referência dos professores em dedicação. "Ele era muito inteligente, estava sempre à frente dos outros, não só nos estudos, mas nas cobranças por melhorias no ensino", conta. Já Rubens chamava mais atenção pela polêmica. "Ele também era muito inteligente, mas gostava mais de contestar, de questionar."

Operação. Os jovens se desenvolveram. Foram para São Paulo fazer faculdade, passaram em concursos públicos, subiram na vida. Eram frequentemente citados em Condeúba como "filhos da terra que deram certo". Mas a Operação Porto Seguro da Polícia Federal, que colocou os irmãos na condição de protagonistas de um esquema de venda de pareceres técnicos de órgãos públicos a empresas privadas, chocou os pouco mais de 17 mil habitantes do município, que faz divisa com Minas. Eles chegaram a ser presos provisoriamente - agora estão soltos.

"Perdi o chão quando comecei a acompanhar o caso, pela internet", conta Suely. "Minha sensação foi que meus próprios filhos tinham feito uma traquinagem muito grande. Cheguei a chorar quando o Paulo foi citado como 'chefe de quadrilha'. Ficamos todos tristes. Até agora torço para que tudo não tenha passado de um grande mal-entendido, que alguém vai esclarecer uma hora dessas", afirmou.

O caso é o tema recorrente das conversas nos bares e restaurantes da cidade. "Ninguém fala em outra coisa", diz a secretária executiva da prefeitura, Jeane Miranda. "Fomos todos pegos de surpresa, porque, em cidade pequena, todo mundo se conhece. A gente acompanhou o desenvolvimento deles, sentia orgulho do que eles tinham alcançado na vida. Aí, de repente, acontece uma coisa dessas."

Reclusos. Seu Arlindo Rodrigues Vieira, conhecido como Arlindão, e Dona Custódia Pereira Rocha, os pais, não escondem o desgosto. Conhecidos em toda a região pelo trabalho árduo na zona rural do município, pela simplicidade e pelo rigor no cumprimento das regras, os dois têm evitado conversar, mesmo com vizinhos, depois da prisão dos filhos.

Negro, alto, forte e com barba cultivada há muitos anos, Arlindão ficou conhecido dos moradores pelo trabalho como carreteiro. À frente de um carro de boi, fazia transportes diversos entre a sede da cidade e a zona rural. Além disso, trabalhava na roça, primeiro para outras pessoas, depois no próprio sítio.

Após a divulgação da Porto Seguro, Arlindão resolveu intensificar a rotina de trabalho. Passa mais tempo no sítio da família do que na casa simples na qual mora na cidade. Parte para a roça ao amanhecer e só volta no fim da tarde. "Não criei filho para virar ladrão", tem dito a quem pergunta sobre o caso, demonstrando bastante aborrecimento com o assunto.

Dona Custódia adotou a reclusão. Passa o dia fechada no sítio ou na casa, sem atender a porta. No máximo, sai para visitar familiares. "Ela tem andado muito cabisbaixa, perdeu o sorriso", diz o professor Souza.

Paulo Vieira pediu demissão do cargo na última quinta-feira. O Palácio Planalto espera que Rubens siga o mesmo caminho.

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