Prisão barra negócios de ex-diretor da Petrobrás

Preso na Operação Lava Jato e envolvido na polêmica de Pasadena, Paulo Roberto Costa tinha acordo para construir refinaria privada em Sergipe

MARCELO DE MORAES / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

22 Março 2014 | 02h09

O ex-diretor de Refino e Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa tinha planos ambiciosos para ampliar suas atividades empresariais. Presidente da Costa Global e do Grupo Ref Brasil, ele já havia conseguido assinar um protocolo de intenções com o governo de Sergipe para construir uma refinaria privada de petróleo no Estado, em Carmópolis, numa negociação estimada em cerca de R$ 120 milhões.

Os fatos dos últimos dias, no entanto, enterram as pretensões de Costa em Sergipe. Primeiro, ele foi alvo da Operação Lava Jato da Polícia Federal. Os investigadores descobriram uma estreita relação dele com o doleiro Alberto Youssef, de quem chegou a ganhar uma Land Rover. Também acharam muito dinheiro em sua casa, no Rio de Janeiro. Foi preso sob suspeita de lavagem de dinheiro e tentativa de ocultar provas. Os federais relacionam Costa a um "plano de negócios com a Petrobrás", estatal da qual já foi diretor.

A prisão anteontem acabou jogando luz à atuação de Costa em outro caso polêmico: a compra da refinaria de Pasadena, no Texas (EUA) pela Petrobrás. Em 2006, quando o Conselho de Administração da estatal aprovou o negócio sob o comando da hoje presidente Dilma Rousseff, Costa ainda estava na empresa e ajudou a elaborar o contrato. Ao lado de Nestor Cerveró, à época diretor da área internacional, ele preparou o "resumo técnico" considerado "falho" e "incompleto" por Dilma. A presidente disse que, se soubesse de algumas cláusulas omitidas nesse resumo, não teria aprovado a compra da refinaria de Pasadena.

Nos bastidores, Costa costumava ter grande desenvoltura no Congresso Nacional quando estava na estatal. Integrava a cota peemedebista na Petrobrás.

Maior. O projeto de Sergipe fazia parte de um plano maior, que incluía a construção de outras três minirrefinarias, todas privadas, ao longo da década. Os locais já estavam escolhidos. Além de Sergipe, seriam feitas também no Ceará, Alagoas e Espírito Santo. Costa chegou a comentar que já tinha se encontrado com o governador do Ceará, Cid Gomes, para tratar do assunto.

Em Sergipe, as operações já estavam muito mais adiantadas. O governador Jackson Barreto (PMDB) anunciou, com toda a pompa e circunstância, o superinvestimento privado no Estado, no dia 13 de janeiro. A refinaria ainda homenagearia o governador Marcelo Déda, petista que morreu de câncer em dezembro do ano passado.

A prisão de Costa, acusado de envolvimento no esquema de lavagem de recursos ilícitos, que pode chegar a R$ 10 bilhões, corta a negociação, segundo nota oficial da Secretaria de Estado do Desenvolvimento e Tecnologia de Sergipe. "A secretaria garante que não houve qualquer prejuízo para o Estado, uma vez que não foi realizada nenhuma concessão de incentivo, pois o processo ainda se encontra na fase protocolar de intenções e o projeto aguarda as definições da ANP e Petrobrás, indispensáveis a qualquer decisão governamental", afirma a pasta.

O governo disse ainda que "a iniciativa de procurar o Estado partiu do Grupo Ref Brasil e se deu no início de maio de 2013, período em que o atual governador Jackson Barreto ainda não havia, sequer, assumido definitivamente a interinidade", diz a nota, referindo-se ao trâmite para que o atual governador assumisse o posto de Déda. "No fim do ano passado o Grupo Ref esteve na Petrobrás, na ANP e na Sudene para tratativas de todos os projetos de minirrefinarias nos Estados planejados. Somente em janeiro de 2014 o grupo propôs a assinatura de um Protocolo de Intenções para a implantação do projeto em Sergipe, que foi assinado em janeiro passado. O protocolo de intenções é um ato corriqueiro da secretaria que busca oficializar intenções de investimentos em nosso Estado", afirma o texto.

'Idoneidade'. "Todas as referências que o grupo apresentou demonstravam idoneidade junto aos órgãos do setor, sendo que não havia nenhuma informação negativa em nenhum organismo sobre o referido investidor. O governo tratou os investidores da Ref da mesma forma como trata dezenas de outros empresários que procuraram e procuram o governo estadual para instalar seus investimentos, referenciando-se no sério e responsável programa de desenvolvimento que só nos últimos sete anos proporcionou a instalação de dezenas de novas fábricas e empresas em Sergipe, e a criação de mais de 40 mil empregos", explicou a secretaria na sua nota oficial.

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