Washington Alves/Estadão Conteúdo
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Primeira mulher negra da ALMG foi eleita com apoio de movimento de renovação

O grupo Muitas, fundado em 2015, foi peça-chave na campanha de Andreia de Jesus (PSOL)

Jonathas Cotrim, O Estado de S.Paulo

11 Outubro 2018 | 21h29

BELO HORIZONTE - Os mais de 17 mil votos nas eleições 2018 que renderam a eleição da advogada Andreia de Jesus, PSOL, para a Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), surpreenderam a candidata eleita. Sendo a primeira mulher negra a ocupar um cargo no legislativo mineiro, Andreia faz parte das Muitas, grupo de renovação política que se originou dos movimentos sociais e que se abriga em partidos de esquerda.

Além de advogada, Andreia de Jesus é educadora infantil e servidora pública municipal. Foi a primeira vez que ela disputou algum cargo público, e confessa ter se surpreendido com o resultado. “A campanha foi feita corpo a corpo, eu tinha pouco tempo de televisão, eu pensava que não estava alcançando o público como outras campanhas”, afirmou a deputada eleita, que acredita que as redes sociais ajudaram a impulsionar a candidatura.

Envolvida com pastorais católicas e movimentos por moradia de Belo Horizonte, Andreia se candidatou depois de trabalhar no gabinete das vereadoras do PSOL, Cida Falabella e Áurea Carolina, que foi a mais votada para a Câmara em Belo Horizonte em 2016.

As Muitas surgiu em 2015, em uma reunião de diversos movimentos que decidiram se unir para discutir as eleições. “É uma movimentação que está incomodada com o perfil político que ocupa os espaços de decisão, sempre uma elite branca, que passa de pai para filhos”, explica a deputada estadual eleita.

Entre as pautas defendidas estão questões relacionadas aos direitos humanos, direitos pela cidade e por acesso à cultura e os candidatos escolhidos são todos envolvidos com movimentos sociais. Apesar de usarem recursos do fundo partidário, as Muitas usaram financiamento coletivo, as “vaquinhas online” para financiar as campanhas, além de priorizarem trabalho voluntário. Neste ano, o movimento arrecadou R$ 121 mil.

Para o mandato na ALMG, Andreia de Jesus explica que dará prioridade para as pautas defendidas pelos candidatos das Muitas. “Cada candidatura trazia uma pauta mais latente, então essas pautas serão trabalhadas no mandato como se as doze tivessem sido eleitas”.

Apesar de fazer parte das Muitas, a deputada estadual eleita criticou outros movimentos para renovação política no Brasil, como o RAPS e o RenovaBR. “Eles não são movimentos, são partidos que mudaram de nome. O financiamento deles é feito por quem? Quem controla o mandato é quem financia a candidatura”, disse.

Para renovação política, Andreia de Jesus defende a necessidade de “descolonizar” a política. “Temos um modelo de política e de sociedade que reproduz a lógica europeia, do colonizador, de que o político bom é quem tem sobrenome, dinheiro ou discurso de que é novo na política ou que é um bom gestor”.

Para o segundo turno da disputa eleitoral em Minas Gerais, Andreia diz as Muitas não apoiará nem Romeu Zema, do Novo, nem Antonio Anastasia, do PSDB. Na disputa presidencial, o movimento apoiará Fernando Haddad, do PT. “Não somos petistas, mas estamos defendendo a democracia e o Brasil”.

Três perguntas para...

Qual a importância de se ter uma mulher negra na Assembleia Legislativa?

Ter uma mulher negra na liderança política diz sobre a necessidade da gente ter políticas públicas que façam uma reparação histórica de quão danoso foi a escravidão. Ainda entramos nos órgãos públicos na (equipe da) limpeza e precisamos romper isso. Eu não me lembro de nenhum dia da minha vida em que eu não tenha sofrido racismo. Ao se colocar como figura pública, se sofre com o racismo e com o preconceito o tempo todo.

Qual a importância das Muitas na sua campanha?

A minha campanha foi construída coletivamente, eu sempre levei outros candidatos junto comigo. É muito importante romper a lógica da disputa, estamos defendendo um projeto.

Esse ano tivemos o assassinato da vereadora Marielle Franco e o legislativo eleito para o próximo mandato tem uma configuração mais conservadora. Como avalia esse cenário?

Meu processo de existência gera um processo de crise, nunca tivemos uma vida confortável. Esse desafio não é um desafio que a Andreia irá superar sozinha, estarei sempre amparada pelos movimentos sociais.

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