Prevenção de danos

O desdém do governo federal em relação a uma oposição partidária fragilizada contrasta com a solicitude dedicada a um segmento bem mais organizado, no Congresso representado pela Frente Parlamentar Evangélica.

DORA KRAMER, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2012 | 03h06

Sinal evidente de que há, na visão do Palácio do Planalto, um sério potencial de dano eleitoral nas posições das "igrejas" foi o envio do secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, para conversar com a bancada e, em nome da presidente Dilma Rousseff, "dissolver mal-entendidos".

A posição dos evangélicos merece mais atenção que a oposição dos partidos. Descontadas frases de efeito aqui e ali, não se veem tentativas de construção de pontes na direção dos oposicionistas, digamos, tradicionais.

Para estes é aplicado o método do trator, mas com aqueles cujo caráter do contraditório mexe com valores e mobiliza multidões obedientes é diferente.

Afinal, o "setor" é muito bem estruturado. Tem meios de comunicação, representação política, capilaridade, imensa capacidade de mobilização e, portanto, poder de fogo nada desprezível como se viu pelo trabalho que deu na eleição de 2010.

Na ocasião, o PT atribuiu ao PSDB a exploração do tema do aborto, na realidade posto na pauta por evangélicos e católicos, mas agora resolveu ir direto à fonte da contrariedade em ação de prevenção de danos.

O governo reagiu tão logo viu o passivo se acumular em três temas: aborto, as cartilhas de anti-homofobia encomendadas pelo Ministério da Educação e as declarações de Gilberto Carvalho sobre a necessidade de se disputar as classes emergentes com os "conservadores" evangélicos.

Carvalho foi, se explicou, pediu desculpas, aparentemente dissipou o mal-estar.

Resolvido o problema? Nem de longe, pois voltará na eleição para ser usado também como arma pelos partidos adversários. E já que se mostrou disposto a ajoelhar, e se não quiser brincar nesse serviço, o governo vai ser obrigado a rezar.

Faz de conta. Ao sondar o senador Blairo Maggi para que ocupe o Ministério dos Transportes, a presidente Dilma Rousseff ou faz jogo de cena para embromar o PR ou resolveu correr um risco desnecessário.

Convidado uma vez, Maggi recusou alegando conflitos de interesses entre seus negócios particulares e a função de ministro.

Se aceitar agora sua indicação poderia não passar pelo crivo da Comissão de Ética Pública, colegiado consultivo da Presidência para examinar casos de conflitos de interesses relativos aos ocupantes de cargos no primeiro escalão.

Ao insistir em Maggi, considerando que nada ganha ao se expor a questionamentos éticos prévios, Dilma sinaliza preferência por manter Sérgio Passos à frente da pasta.

Boquinhas. Difícil saber o que é pior: o governo de São Paulo oferecer "compensações" na máquina administrativa aos candidatos às prévias do PSDB caso venham a ser canceladas para abrir espaço à candidatura de José Serra, ou a possibilidade de os atuais postulantes virem a aceitar.

Se a "oferta" vier a se concretizar, o governador Geraldo Alckmin ficará mal na comparação com a presidente Dilma Rousseff, que não aceitou dar à senadora Marta Suplicy um ministério em troca do apoio à candidatura de Fernando Haddad.

Resumo da ópera. Assim atestou a maioria do Supremo Tribunal Federal: inelegibilidade não é pena, é pré-requisito de eliminação da disputa para quem não se enquadra no princípio de que no ofício da representação a dúvida não pode ser pró-réu, mas em prol da sociedade.

O STF fez a sua parte, o Congresso a dele. Agora cabe ao eleitor entender que não é panaceia e praticar o voto limpo, bem como é obrigação dos partidos a aplicação do mesmo critério para a seleção do elenco de candidatos.

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