Pressionado, Cunha aceita alterar seu relatório

Para aprovar o documento, relator da CPI negocia a retirada dos pontos polêmicos

EUGÊNIA LOPES / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2012 | 02h07

Sem chances de conseguir aprovar seu relatório na íntegra, o deputado Odair Cunha (PT-MG) está decidido a retirar pontos polêmicos do texto final com as conclusões das investigações da CPI do Cachoeira. Lideranças dos partidos aliados e de oposição já avisaram que o relatório não tem condições de ser aprovado com o pedido para que o Conselho Nacional do Ministério Público investigue o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, e com a solicitação de indiciamento do jornalista Policarpo Júnior, da revista Veja.

"Esse relatório é errático. A retirada desses dois itens é uma imposição", afirmou o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ). Hoje, a tendência da maioria dos integrantes da CPI é derrubar na totalidade o relatório, que acabou chegando a mais de cinco mil páginas.

Ciente de que a derrota é praticamente inevitável, Odair Cunha tenta agora negociar um texto de consenso com os demais integrantes da comissão de inquérito. Daí ele concordar em retirar partes do documento e fazer um relatório que "espelhe o pensamento da CPI".

"Estou ganhando mais prazo para dialogar. É sempre possível fazer aperfeiçoamentos", admitiu o relator. O resumo do relatório deverá ser lido na sessão da próxima quarta-feira. A ideia é votar o texto final ainda na primeira semana de dezembro. "Ele (Odair Cunha) está fazendo um movimento tático para conseguir uma maioria e dividir a mobilização que há contra o seu parecer", observou Teixeira.

Aliados e oposição estão convencidos de que o relatório apresentado por Cunha foi fruto de pressão de parte do PT. O relator se reuniu com integrantes da cúpula petista, entre ele o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, antes de apresentar o texto final na madrugada de terça-feira.

O procurador Roberto Gurgel foi o responsável por defender a condenação das principais personalidades do PT envolvidas no escândalo do mensalão, como o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e o ex-presidente do partido José Genoino.

'Pesou na mão'. Além do jornalista da Veja, que fez uma série de matérias contra o PT, Cunha também sugeriu o indiciamento por formação de quadrilha de outros quatro jornalistas de Goiás: Wagner Relâmpago, Patrícia Moraes, João Unes e Carlos Antônio Nogueira. Nenhum desses jornalistas foi convocado para depor na CPI.

Integrantes da base estão convencidos de que Cunha "pesou na mão" em várias partes do relatório. Citam o exemplo da responsabilização criminal do governador de Goiás, o tucano Marconi Perillo, por seis crimes: formação de quadrilha, corrupção passiva, advocacia administrativa, tráfico de influência, falso testemunho e lavagem de dinheiro.

"Ele (Cunha) foi mais duro com o Perillo do que o Joaquim Barbosa (presidente do Supremo e relator do mensalão na Corte) foi com o José Dirceu", brincou um governista.

No relatório final, Cunha livrou o governador do Distrito Federal, o petista Agnelo Queiroz. Havia a suspeita de que o governo de Brasília teria favorecido a empreiteira Delta, ligada a Cachoeira, em um milionário contrato para a coleta de lixo na capital do País. Contudo, o relator diz não ter encontrado elementos suficientes para implicar Agnelo com o esquema.

Outro governador que não figurou no texto final é o do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB). De acordo com o relatório, o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, mantinha empresas fantasmas que receberam R$ 98 milhões da Delta. A CPI, entretanto, não conseguiu rastrear o destino da maior parte desse dinheiro - uma das suspeitas era para pagar propina a políticos.

No relatório, Cunha pediu também o indiciamento por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha de Fernando Cavendish, dono da empreiteira, e a investigação de todos os diretores da construtora.

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