Pressão sob medida

A queda no favoritismo da presidente Dilma Rousseff com vistas à reeleição em 2014 permanece na pauta política tão somente como uma aposta futura da oposição, mas a cada dia alimentada por fatores que têm merecido a preocupação dos estrategistas do governo. Ao desarranjo da economia, que se espera temporário, soma-se a crise na base aliada deflagrada pela antecipação da campanha, com reflexos na aliança nacional.

João Bosco Rabello,

09 Junho 2013 | 02h06

O que explica parte das turbulências produzidas pela base aliada no Congresso, especialmente pelo PMDB, decidido a preservar seu patrimônio eleitoral. Nesse contexto, o alvo é menos Dilma e mais o PT, com o qual disputa o apoio presidencial nos palanques regionais.

A pressão do PMDB , pelo menos por ora, não deve ser lida como um roteiro para a ruptura, mas como uma cobrança à presidente pelo fim do que o partido considera um comportamento de favorecimento ao rival na aliança, sintetizado no estímulo a candidaturas concorrentes e na liberação seletiva de emendas, instrumento caro aos parlamentares para exibir realizações em suas bases eleitorais.

A presidente parece ter entendido o recado, embora não tenha permitido que o partido lhe imponha um "script" de como agir. Sinais claros nesse sentido foram a admissão de reunião exclusiva com a cúpula do PMDB, sem outras testemunhas, para ouvir diretamente suas queixas, em contraste com os vetos que se seguiram a trechos da MP dos Portos que contrariam interesses do partido.

Os problemas da presidente, porém, não se esgotam na relação com a base e nem estão restritos à questão econômica. O que assombra também a candidata Dilma são fantasmas que já se apresentaram na eleição de 2010, com bandeiras representativas de questões cuja postergação pelo Estado brasileiro encontrou seu limite exatamente em seu mandato. São temas como o aborto, casamento gay, a disputa entre índios e produtores, com forte vínculo religioso a desafiar o enfrentamento da laicidade do Estado.

A antecipação da campanha precipita também o debate dessas questões, de forte potencial de desgaste ao menor equívoco no seu tratamento. Em princípio, a linha menos arriscada - e mais saudável institucionalmente - é a legalista, do Estado laico, cujo ônus é o confronto com os segmentos religiosos de imensa influência num eleitorado majoritariamente conservador.

O drama do debate deve ser do Congresso - que a ele se furta, igualmente, há anos - com a arbitragem do Poder Judiciário. Mas ainda assim, a opção por essa linha não evita a cobrança pela posição pessoal dos candidatos em relação a cada tema e nem sua exploração pelos Felicianos de plantão.

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