Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Presença de Aécio Neves no PSDB é empecilho à federação com Cidadania

Para o pré-candidato do Cidadania à Presidência, Alessandro Vieira, impasse com Aécio dificilmente será solucionado nas negociações entre os partidos; debandada no Cidadania de Minas é prevista caso a federação com os tucanos seja aprovada

Gustavo Côrtes, Especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2022 | 10h00

Em negociação com o PSDB para formar uma federação partidária, o Cidadania tem como foco de resistências internas à aliança o diretório de Minas Gerais, onde lideranças rechaçam a possibilidade de se associar a tucanos ligados ao deputado federal Aécio Neves (PSDB-MG). Segundo o pré-candidato da sigla à Presidência da República, senador Alessandro Vieira (SE), este impasse dificilmente será solucionado nas tratativas entre as legendas. “Parece uma situação em que a gente não consegue compor. Não tem uma regra para resolver isso”, declarou ao Estadão.

Depois de perder a eleição presidencial em 2014 para Dilma Rousseff (PT), Aécio foi alvo de sucessivas denúncias de corrupção. Tornou-se réu na operação Lava Jato após o dono do frigorífico JBS, Joesley Batista, acusá-lo de receber R$ 2 milhões em propina em delação premiada. Enquanto lida com a Justiça, o deputado mantém feudo dentro do PSDB em Minas Gerais, onde foi governador por dois mandatos e conserva influência política. Procurado pela reportagem, o parlamentar não se manifestou.

O presidente do diretório do Cidadania no Estado, o deputado estadual João Vítor Xavier, evita atribuir seu posicionamento contrário à federação às restrições de seus correligionários em relação a Aécio. Para ele, o PSDB dá sinais de perda de identidade com a saída do ex-governador de São Paulo e último presidenciável tucano, Geraldo Alckmin, que busca nova legenda e é o favorito do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para compor a chapa petista como vice. “Muitos argumentam que é o partido com o qual o Cidadania caminhou nas últimas eleições, mas o PSDB das últimas eleições não existe mais.”

Xavier foi filiado ao PSDB, pelo qual se elegeu, em 2018, para o cargo que ocupa hoje. Sua saída se deveu a discordâncias em relação a práticas consideradas por ele como “fisiológicas”. “O partido perdeu sua essência, muito de uma história bonita construída lá atrás. Aqui em Minas, disputou uma eleição contra o (governador de Minas Gerais, Romeu) Zema (Novo) em outubro e, em janeiro, assumiu a liderança do governo. Que identidade programática é essa?”, protestou.

Ele não descarta a possibilidade de deixar o Cidadania, caso a federação com os tucanos se concretize, e prevê uma debandada do partido em seu Estado. “Eu não vou dizer que todos sairemos, mas não há dúvidas de que muitos sairão. Prefiro acreditar que não chegaremos a esse ponto. Não faço política individualmente. Tem dezenas de pessoas que vieram para o partido pelas minhas mãos. A maioria esmagadora do diretório é contra.”

Favorável à formação de uma federação - negociada no momento com Podemos e PDT, além do PSDB -, o presidente do Cidadania, Roberto Freire, defende que o debate se concentre nos interesses da sigla em âmbito nacional, ainda que, assim, sejam sacrificadas demandas regionais. “Eu levo em consideração as queixas e as escuto, mas algumas têm de ser superadas. Não podemos discutir a federação nacionalmente apenas por um problema localizado. Em outros Estados teremos enormes benefícios, seja com que partido for”, explicou.

Xavier teme que a união com um partido maior possa minar a ascensão de novas lideranças do Cidadania e retirar da sigla a autonomia para definir a própria agenda. “Passaríamos a ser um apêndice do PSDB e perderíamos qualquer possibilidade de sobreviver individualmente. Nós temos um pré-candidato à Presidência, eles têm outro. Aceitam fazer uma discussão interna de quem vai ser o candidato? Alessandro Vieira, que é do nosso partido, tem o mesmo 1% do Doria e uma rejeição baixíssima, tem espaço para crescer.”Este é um dos motivos pelos quais Vieira afirmou ter votado contra a união com o partido do governador de São Paulo e também postulante ao Planalto, João Doria (PSDB), na mais recente Executiva Nacional do Cidadania, realizada no último dia 1º. Na ocasião, os filiados não formaram maioria favorável à formação de qualquer federação. Setores da legenda defendem uma aliança com o Podemos, do ex-juiz Sérgio Moro. PDT e MDB também negociam. “No momento em que a gente não tem regras publicadas e aceitas, eu sou contra qualquer federação. Por enquanto, o Cidadania tem uma decisão unânime da Executiva que aponta para uma candidatura própria”, disse Vieira. Nesta quarta-feira, 9, o Supremo Tribunal Federal confirmou a possibilidade de as siglas se organizarem em federações, ampliando o prazo final para registro até 31 de maio.

Decisão à vista

A decisão ficou para o próximo dia 15, quando cada uma das possibilidades de federação será novamente submetida à votação. Para aprovar uma delas, o senador quer garantias de que “espaços de renovação” sejam preservados. “Sem regras muito claras, você vai matar o partido nos Estados. É preciso ter participação mínima dos municípios e adotar critérios para definição de candidaturas proporcionais e majoritárias”, afirmou. Ele também deseja que se estabeleça previamente um método para definir qual será o pré-candidato apoiado pela eventual federação: “Pode ser pesquisa ou um estudo qualitativo em uma determinada data. O importante é que seja aplicada a regra”.

Freire minimiza a possibilidade de enfraquecimento ou perda de autonomia do partido. “Isso é uma bobagem, coisa de quem não leu o que significa federação. O partido só desaparece se fizer regras ou estatutos em que se anula. Se você resguarda o seu espaço, a lei garante que depois de quatro anos você desfaça a federação. As pessoas não leem o projeto.”

Uma comissão foi criada para definir os termos de adesão à federação. Tanto PSDB quanto Podemos já aceitaram estabelecer regras antes de selar a união, mas requisitaram alterações na proposta inicial apresentada pelo Cidadania. Vieira, que integra o grupo de trabalho, diz estar aberto a qualquer um dos partidos e seus respectivos presidenciáveis. “Não tenho nenhuma dificuldade em conversar com esses quatro representantes. Todos estão no campo democrático e têm pré-candidatos que são homens e uma mulher que merecem todo o respeito. Sou um senador em primeiro mandato. Não tenho nenhuma urgência de ser candidato a nada.”

De acordo com Freire, existe a possibilidade de o candidato da federação ser definido por meio de prévias, como fez o PSDB para sacramentar Doria como presidenciável. “Podemos também ter uma reunião de líderes e escolher quem tem mais chances ou mais capilaridade.” As negociações ainda incluem, segundo ele, a possibilidade de, nos próximos pleitos municipais, haver convocação de eleições internas sempre que houver mais de um candidato. 

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