Prender 'já é uma pequena revolução' , diz historiador

Historiador diz que 'tem tudo a ver' as primeiras prisões de condenados coincidirem com o aniversário da República

Entrevista com

GABRIEL MANZANO, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2013 | 02h03

Grande conhecedor do período republicano da História do Brasil, o mineiro José Murilo de Carvalho acha que "tem tudo a ver" o fato de condenados do mensalão - pelo menos alguns - serem presos exatamente no dia do aniversário da República. Ele define como "uma pequena revolução" o fato de vários deles irem diretamente para o regime fechado - e comparou o regime semiaberto, a ser cumprido por vários outros, a "um hotel duas estrelas". Mas o historiador se pergunta, também, "o que vai acontecer" quando terminar a presidência de Joaquim Barbosa no Supremo, "o homem fora da curva".

Qual a sua avaliação das primeiras prisões dos condenados do mensalão?

Foi uma boa surpresa. Foi grande a frustração quando o Supremo Tribunal Federal aceitou os embargos infringentes, inclusive em casos em que eles não se aplicavam, cedendo a manobras protelatórias de alguns ministros, incluindo os dois que pela primeira vez participavam do julgamento. Acredito que o STF - sobretudo alguns de seus ministros - foi sensível à repulsa pública à decisão anterior.

Vê algum significado especial na coincidência entre essas prisões e o dia da Proclamação da República?

Não sei se foi proposital a coincidência com a data do aniversário da República. Mas tem tudo a ver. Igualdade perante a lei, sem tratamentos privilegiados, é da essência da República. A continuar a prática, acrescenta-se conteúdo republicano à Republica, algo de que ela muito carece. Só faltaria acabar com o privilégio da prisão especial para quem tem diploma universitário.

O que vai ficar para a história desse episódio todo?

Ainda resta ver o resultado final. Prisão para o andar de cima já é alguma coisa. Mas prisão especial em regime semiaberto é um hotel de duas estrelas. O impacto maior perante a população, sobretudo no domínio simbólico, é quando ocorre a prisão em regime fechado. Os primeiros ricos e poderosos estão indo para a cadeia, o que já é uma pequena revolução.

Que impacto isso deve deixar no mundo político?

Dependerá do que venha a seguir, sobretudo de julgamento de casos semelhantes, consolidação da nova jurisprudência, consolidação do desvio da curva, modificação no código de processo para reduzir a avalanche de recursos, maior agilidade do Judiciário e por aí vai. E a pergunta que não quer calar: o que vai acontecer quando terminar a presidência de Joaquim Barbosa, o homem fora da curva?

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.