Prédio de senador foi ponto de encontro

Grampo da PF indica que envolvidos em esquema de Cachoeira se encontraram em apartamento funcional usado por Demóstenes

FÁBIO FABRINI / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2012 | 03h07

Grampos da Polícia Federal indicam que o apartamento funcional em que mora o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) em Brasília serviu de ponto de encontro da cúpula da máfia dos caça-níqueis em Goiás e no Distrito Federal. Em conversas interceptadas pela Operação Monte Carlo, o sargento Idalberto Matias de Araújo, o Dadá, apontado como um dos operadores de Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, relata uma reunião de integrantes do esquema no local.

No telefonema de 17 minutos, gravado em 21 de dezembro de 2010, Dadá diz a Lenine Araújo de Souza - segundo homem na hierarquia do esquema, responsável pela administração contábil do grupo, conforme a PF - que está no Bloco C da Quadra 309, na Asa Sul, em Brasília.

Trata-se do chamado bloco dos senadores, onde Demóstenes e outros parlamentares ocupam apartamentos funcionais cedidos pelo Senado. "Está aonde?", indaga Lenine. "Aqui na 309, Bloco C, no estacionamento, na Sul, na Asa Sul", responde o sargento.

Segundo as transcrições, às quais o Estado teve acesso, foram ao local Cachoeira, ao qual Dadá e outros integrantes do grupo se referem como "o homem"; Cláudio Dias de Abreu, citado no inquérito como sócio do empresário em negócios ilegais, e Wladimir Garcez Henrique, que seria seu braço direito, encarregado de obter facilidades nas Polícias Militar e Civil de Goiás. O Bloco C e o Bloco G, onde mora Demóstenes, são unidos e têm estacionamento e portaria comuns.

'Não posso sair'. Eram cerca de 16h40 e, na conversa, Dadá dizia estar em frente ao prédio desde a hora do almoço. "O homem está aqui, Cláudio, está aqui, não posso sair", explicou a Lenine. Demóstenes estava em Brasília nesse dia, conforme registros do Senado. Procurado ontem, seu advogado, Antônio Carlos de Almeida Castro, não se pronunciou.

Segundo o inquérito, após o encontro no prédio, o grupo seguiu para reunião com um advogado não identificado. "Encontramos com o homem aqui na 309. A gente está indo lá pro Gustavo, advogado no Lago Sul", diz o sargento.

O inquérito da Monte Carlo comprova a extensa teia de relações do grupo, que se valia de contatos nos mais diversos órgãos. Numa das conversas, Gleyb Ferreira da Cruz - elo de Cachoeira com o delegado da PF Deuselino Valadares - comenta com um interlocutor sobre a possibilidade de "entrar com um interesse" na Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para resolver um negócio de R$ 300 mil.

Em outra, Dadá telefona para um policial federal pedindo que obtenha, em tempo recorde, passaporte especial ou diplomático para um desembargador. Segundo o inquérito, Cachoeira controlava o jogo em Goiás e no Distrito Federal. O dinheiro obtido como comissão de operadores das casas de jogos era lavado em diversas empresas. Dadá também era o elo entre Cachoeira e funcionários da Receita e da Infraero para obter facilidades na entrada de integrantes do grupo com mercadorias pelo Aeroporto de Brasília.

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